{"id":10054,"date":"2026-09-25T17:20:03","date_gmt":"2026-09-25T16:20:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/?p=10054"},"modified":"2026-09-25T17:20:05","modified_gmt":"2026-09-25T16:20:05","slug":"review-festival-iminente-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/review-festival-iminente-2026\/","title":{"rendered":"[Review] Festival Iminente 2026"},"content":{"rendered":"<p>O Festival Iminente celebrou dez anos entre 17 e 20 de setembro, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, com quatro dias de m\u00fasica, artes visuais e encontros entre diferentes express\u00f5es da cultura urbana. O alinhamento aproximou gera\u00e7\u00f5es, l\u00ednguas e formas de cria\u00e7\u00e3o, dando espa\u00e7o ao hip-hop, \u00e0 can\u00e7\u00e3o portuguesa, \u00e0 eletr\u00f3nica e \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Num tempo em que se procura tantas vezes reduzir a identidade a uma origem, uma l\u00edngua ou uma maneira de viver, a exist\u00eancia de um festival multicultural tem uma import\u00e2ncia que merece ser destacada para al\u00e9m da qualidade do cartaz. A m\u00fasica permite uma aproxima\u00e7\u00e3o que o debate p\u00fablico nem sempre consegue produzir e, ainda que essa experi\u00eancia n\u00e3o resolva preconceitos por si s\u00f3, oferece uma oportunidade concreta de os contrariar. <\/p>\n\n\n\n<img width=\"700\" height=\"393\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2724.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10055\" srcset=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2724.jpg 700w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2724-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2724-18x10.jpg 18w\" \/>\n\n\n\n<p>Talvez seja por isso que o Iminente importa particularmente nos tempos que vivemos. Quando se insiste em explicar uma sociedade atrav\u00e9s de fronteiras entre quem pertence e quem chegou, entre uma identidade supostamente fixa e tudo aquilo que a poder\u00e1 amea\u00e7ar, a m\u00fasica devolve complexidade \u00e0s pessoas, apesar de lhes dar algo comum: a emo\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>A abertura teve, entre outros, em Capicua, Mind da Gap e Sam The Kid tr\u00eas express\u00f5es distintas da maturidade do hip-hop portugu\u00eas. Capicua cruzou <em>Um Gelado Antes do Fim do Mundo<\/em> com temas de outras fases, incluindo \u201cMedo do Medo\u201d e \u201cMaria Capaz&#8221;. Os Mind da Gap recuperaram \u201cTodos Gordos\u201d, \u201cDedicat\u00f3ria\u201d e \u201cBazamos ou Ficamos\u201d, recebendo Sam The Kid em \u201c\u00c9s Onde Quero Estar\u201d e Valete em \u201cN\u00e3o P\u00e1ra\u201d. A apresenta\u00e7\u00e3o de <em>Beats Vol. 1: Amor<\/em> com Orelha Negra e orquestra que Sam The Kid trouxe ao festival acrescentou outra dimens\u00e3o ao momento, ainda que num formato longe do habitual para o padr\u00e3o festival.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Lua Caiano e Gisela Jo\u00e3o ampliaram esse di\u00e1logo atrav\u00e9s da voz, da eletr\u00f3nica e da can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o. Pu\u00e7anga, Planeta Manas e Mindel Reggae Family abriram outros caminhos, entre experimenta\u00e7\u00e3o, clubbing e reggae. A primeira noite deixava assim uma ideia clara: a identidade musical portuguesa permite muito mais aproxima\u00e7\u00f5es do que as divis\u00f5es habituais dos cartazes fazem supor.x<\/p>\n\n\n\n<img width=\"700\" height=\"933\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2681.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10056\" srcset=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2681.jpg 700w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2681-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2681-9x12.jpg 9w\" \/>\n\n\n\n<p>Na sexta-feira, a diversidade passou tamb\u00e9m pelas diferentes maneiras de construir um espet\u00e1culo. Minguito trouxe a energia do drill; Libra, uma artista com uma qualidade vocal rara e letras poderosas, apresentou um formato concentrado na voz e na bateria; AJULLIACOSTA conjugou interpreta\u00e7\u00e3o e dan\u00e7a. Xullaji, (um dos melhores concertos do festival) e Ghoya deram for\u00e7a \u00e0 palavra pol\u00edtica, enquanto Herlander explorou uma presen\u00e7a performativa ligada ao universo digital e Black Milk acrescentou a rela\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o. Estas propostas permitiram reconhecer um hip-hop em permanente transforma\u00e7\u00e3o, capaz de preservar a import\u00e2ncia da escrita e de experimentar outras formas de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesta conviv\u00eancia entre linguagens que a dimens\u00e3o multicultural do Iminente ganha sentido. Um festival pode ajudar-nos a reconhecer a complexidade de um pa\u00eds que nenhuma defini\u00e7\u00e3o estreita de identidade consegue abranger. A l\u00edngua em que algu\u00e9m canta, o bairro de onde vem ou as refer\u00eancias que transporta fazem parte de uma hist\u00f3ria, mas n\u00e3o esgotam aquilo que essa pessoa pode criar e ouvir implica aceitar essa liberdade. Num tempo em que a diferen\u00e7a serve tantas vezes de argumento para a exclus\u00e3o, oferecer espa\u00e7o \u00e0 express\u00e3o individual e coletiva tem um valor que ultrapassa o entretenimento.<\/p>\n\n\n\n<img width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2653.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10057\" srcset=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2653.jpg 700w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2653-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2653-16x12.jpg 16w\" \/>\n\n\n\n<p>O s\u00e1bado levou essa amplitude a um dos seus pontos mais interessantes. La Familia Gitana trouxe a tradi\u00e7\u00e3o musical cigana do Bairro do Fim do Mundo, enquanto Dino D\u2019Santiago recebeu Luedji Luna em \u201cOh Bahia\u201d, Lena D&#8217;\u00c1gua encantou com a sua vitalidade, j\u00e1 Vado MKA e Real Guns acrescentaram diferentes express\u00f5es do rap crioulo, enquanto Red Chikas e JJ 2000 Fantasmas deram visibilidade a percursos femininos que tamb\u00e9m pertencem \u00e0 hist\u00f3ria do g\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<p>Conway The Machine e DJ Premier estabeleceram outras rela\u00e7\u00f5es com a mem\u00f3ria do hip-hop. A programa\u00e7\u00e3o tinha, contudo, uma abund\u00e2ncia dif\u00edcil de acompanhar, mas muito comum em festivais que pretendem apresentar um leque variado e ecl\u00e9tico de artistas. Para o ano, o Iminente estar\u00e1 de volta e, certamente, alguns dos problemas t\u00e9cnicos\/som que existiram este ano, ainda que n\u00e3o sendo suficientes para comprometer os espect\u00e1culos, estar\u00e3o corrigidos.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo dia, destaque natural para a interven\u00e7\u00e3o sempre acutilante da A Garota N\u00e3o e para os hist\u00f3ricos Micro, a festejarem os 30 anos deram um concerto cheio de energia no Palco Choque. Enquanto Luedji Luna, os M\u00e3o Morta, Batida e o Expresso Transatl\u00e2ntico encerraram quatro dias de Ecletismo, diversidade e comunh\u00e3o, num Festival que conseguiu, num novo espa\u00e7o, voltar a demonstrar toda a sua pecularidade e miss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<img width=\"700\" height=\"393\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2728.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10059\" srcset=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2728.jpg 700w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2728-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/IMG_2728-18x10.jpg 18w\" \/>\n\n\n\n<p>Aos dez anos, o Iminente conserva assim uma proposta cultural reconhec\u00edvel e uma capacidade importante de p\u00f4r p\u00fablicos e linguagens em contacto. A exig\u00eancia sobre o som, o cumprimento dos hor\u00e1rios, os pre\u00e7os exagerados para alimenta\u00e7\u00e3o\/bebida num Festival que se quer mais inclusivo (ainda que, nos dias que correm, sem um patrocinador a dar o nome ao festival, torna-se muito dif\u00edcil manter a independ\u00eancia e os pre\u00e7os baixos. Ainda que, deixa-se o destaque positivo para algumas propostas culin\u00e1rias feitas pelos representantes de alguns dos bairros da zona de Marvila\/Chelas).<\/p>\n\n\n\n<p>O Iminente tem uma identidade muito pr\u00f3pria e continua a ter o raro poder de cruzar arte, m\u00fasica e express\u00e3o dram\u00e1tica, num espa\u00e7o urbano abandonado. O que fica desta edi\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade de uma cidade se conhecer melhor atrav\u00e9s daquilo que os seus artistas e comunidades t\u00eam para dizer. Entre os destaques conhecidos e uma voz descoberta pela primeira vez, pode come\u00e7ar uma rela\u00e7\u00e3o que sobreviva ao festival. \u00c9 nessa continuidade, feita de aten\u00e7\u00e3o e curiosidade, que o encontro ganha futuro.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Festival Iminente celebrou dez anos entre 17 e 20 de setembro, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, com quatro dias de m\u00fasica, artes visuais e encontros entre diferentes express\u00f5es da cultura urbana. 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