{"id":9306,"date":"2026-04-27T10:18:00","date_gmt":"2026-04-27T09:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/?p=9306"},"modified":"2026-04-27T01:23:19","modified_gmt":"2026-04-27T00:23:19","slug":"concert-review-a-garota-nao-c-coro-das-mulheres-da-fabrica-teatro-jose-lucio-da-silva-leiria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/concert-review-a-garota-nao-c-coro-das-mulheres-da-fabrica-teatro-jose-lucio-da-silva-leiria\/","title":{"rendered":"[Concert Review] A Garota N\u00e3o c\/ Coro das Mulheres da F\u00e1brica @Teatro Jos\u00e9 L\u00facio da Silva, Leiria"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 artistas que mudam com o tempo. E depois h\u00e1 aqueles em que tudo muda \u00e0 sua volta, menos o essencial. Desde que o Ecletismo Musical viu A Garota N\u00e3o, em Torres Vedras, ainda em 2022, j\u00e1 havia uma verdade imposs\u00edvel de ignorar: uma urg\u00eancia que n\u00e3o vinha da m\u00fasica, mas daquilo que precisava de ser dito. No s\u00e1bado, no Teatro Jos\u00e9 L\u00facio da Silva, em Leiria, essa urg\u00eancia continua intacta, mesmo que tudo \u00e0 volta tenha crescido.<\/p>\n\n\n\n<p>O concerto come\u00e7ou no formato habitual, com C\u00e1tia Mazari Oliveira acompanhada pela sua banda, S\u00e9rgio Miendes, Diogo Arranja e Jo\u00e3o Mota. \u201cCan\u00e7\u00e3o Sem Fim\u201d abre o caminho sem pressa, mas com peso. Seguem-se \u201cEste Pa\u00eds N\u00e3o \u00c9 Para M\u00e3es\u201d, \u201cA Sede do Xega\u201d, \u201cFronteiras Invis\u00edveis\u201d e \u201cUrgentemente\u201d. Cinco can\u00e7\u00f5es onde cada verso assenta sozinho e se sustenta por si.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma linha que atravessa tudo e que, aqui, se sente sem filtro. Nada \u00e9 dito ao acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Sede do Xega\u201d n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o. Precisa apenas de ser dita em voz alta, no contexto certo, com o p\u00fablico certo. E esse contexto existe, na forma como a sala escuta, responde e reconhece. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 provoca\u00e7\u00e3o. \u00c9 afirma\u00e7\u00e3o partilhada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFronteiras invis\u00edveis\u201d ecoa n\u00e3o como verso, mas como pergunta aberta. Quantas fronteiras carregamos sem as nomear? Quantas continuam dentro de n\u00f3s, mesmo quando pensamos que j\u00e1 as ultrapass\u00e1mos?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUrgentemente\u201d surge como necessidade. N\u00e3o como pressa, mas como consci\u00eancia de que h\u00e1 coisas que j\u00e1 n\u00e3o podem esperar.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 depois deste primeiro bloco que tudo se expande.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada das cerca de 60 mulheres do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/coro.das.mulheres.da.fabrica\/\">Coro das Mulheres da F\u00e1brica<\/a> transforma a sala. O concerto deixa de ser apenas can\u00e7\u00e3o e passa a ser corpo coletivo. O que antes era palavra individual ganha dimens\u00e3o partilhada, mem\u00f3ria e interven\u00e7\u00e3o colectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O Coro das Mulheres da F\u00e1brica, que faz um trabalho extraordin\u00e1rio na recolha e reinven\u00e7\u00e3o do cancioneiro tradicional e da oralidade, deixa de ser presen\u00e7a e passa a ser for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cQue Mulher \u00c9 Essa\u201d, cruzada com versos da tradi\u00e7\u00e3o oral, \u201cque tristeza \u00e9 ser mulher, se \u00e9 bonita tem m\u00e1 fama, se \u00e9 feia ningu\u00e9m a quer\u201d, tudo ganha outro peso. N\u00e3o \u00e9 apenas can\u00e7\u00e3o. \u00c9 heran\u00e7a viva. E transforma-se num dos momentos mais fortes da noite.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDil\u00favio\u201d n\u00e3o surge como rutura, mas como acumula\u00e7\u00e3o, como se tudo o que foi sendo dito ao longo do concerto, encontrasse ali um ponto de descarga emocional, sem nunca perder o controlo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois \u201cFerry Gold\u201d chega-nos para nos lembrar que nem a natureza permanece p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda havia espa\u00e7o para mais, a surpresa da noite: um medley da A Garota N\u00e3o e do Coro das Mulheres da F\u00e1brica com direito a C\u00e1tia a cantar desde System of a Down, \u201cPower to the people\u201d, Rage Against the Machine ou \u201cVampiros\u201d, \u201cDepois do Adeus\u201d, \u201cQue for\u00e7a \u00e9 essa\u201d e, para fechar, um Teatro todo de p\u00e9 a cantar em un\u00edssono a ic\u00f3nica: \u201cGrandola, Vila Morena\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde Torres Vedras at\u00e9 aqui, muita coisa mudou. Os palcos cresceram, o p\u00fablico tornou-se fiel, as salas enchem-se com uma certeza que j\u00e1 n\u00e3o precisa de valida\u00e7\u00e3o. Mas C\u00e1tia continua exatamente onde sempre esteve. A sua verdade n\u00e3o mudou. A sua integridade n\u00e3o foi negociada. E a fama n\u00e3o a transformou, apenas lhe deu mais espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais espa\u00e7o para dizer. Mais espa\u00e7o para incomodar. Mais espa\u00e7o para intervir. E talvez seja isso que este concerto revela com mais clareza. N\u00e3o o crescimento. Mas a amplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, ver A Garota N\u00e3o hoje \u00e9 perceber que h\u00e1 artistas que n\u00e3o mudam para crescer. Crescem para poder ser ainda mais aquilo que sempre foram.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso muda tudo.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 artistas que mudam com o tempo. E depois h\u00e1 aqueles em que tudo muda \u00e0 sua volta, menos o essencial. 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