{"id":9567,"date":"2026-06-01T20:02:43","date_gmt":"2026-06-01T19:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/?p=9567"},"modified":"2026-06-01T20:03:18","modified_gmt":"2026-06-01T19:03:18","slug":"album-review-luis-sequeira-quer-sequeira-quer-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/album-review-luis-sequeira-quer-sequeira-quer-nao\/","title":{"rendered":"[Album Review] Lu\u00eds Sequeira &#8211; Quer Sequeira quer n\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O mundo da m\u00fasica tem uma estranha rela\u00e7\u00e3o com o talento. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, vimos artistas extraordin\u00e1rios desaparecerem na margem enquanto outros, nem sempre mais capazes, encontravam o momento certo, a exposi\u00e7\u00e3o certa ou simplesmente o acaso certo. E talvez seja precisamente isso que continua a tornar t\u00e3o dif\u00edcil explicar uma carreira art\u00edstica. Porque o talento, por si s\u00f3, raramente garante destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ouvir <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/luissequeira.official\/\">Lu\u00eds Sequeira,<\/a> quer seja no \u00e1lbum, quer seja nas suas extraordin\u00e1rias participa\u00e7\u00f5es no podcast de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/davidantunesmusic\/\">David Antunes<\/a> &#8211; Canta-me uma Hist\u00f3ria, essa sensa\u00e7\u00e3o torna-se inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil compreender como uma voz com esta identidade, esta profundidade emocional e esta capacidade interpretativa ainda n\u00e3o ocupa um espa\u00e7o muito maior dentro da m\u00fasica portuguesa. O seu talento vocal \u00e9 impressionante n\u00e3o apenas pela t\u00e9cnica, mas pela forma como palavra carrega inten\u00e7\u00e3o, cada sil\u00eancio tem peso, e cada interpreta\u00e7\u00e3o transmite a sensa\u00e7\u00e3o de que existe sempre algo real a acontecer por detr\u00e1s da m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/spQegxjfiyY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Mas talvez a hist\u00f3ria dos artistas seja muitas vezes feita precisamente destes desencontros entre capacidade e reconhecimento. Talvez uma carreira dependa tantas vezes de fatores imposs\u00edveis de controlar: a can\u00e7\u00e3o que chega na altura certa, a oportunidade inesperada, o tal &#8220;momento viral&#8221; atual.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Quer Sequeira Quer N\u00e3o<\/em> parece carregar tamb\u00e9m essa consci\u00eancia. N\u00e3o como frustra\u00e7\u00e3o, mas como maturidade. Como o trabalho de algu\u00e9m que continua a aprofundar a sua identidade art\u00edstica sem ficar preso \u00e0 necessidade imediata de valida\u00e7\u00e3o exterior. Como se a sua resposta fosse apenas o trabalho e ser artista fosse um des\u00edgnio, independentemente do impacto imediato.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/scVPx51Pkz0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Neste segundo \u00e1lbum, o amor deixa de surgir como conceito rom\u00e2ntico idealizado para se transformar numa for\u00e7a contradit\u00f3ria, necessariamente imperfeita mas inevit\u00e1vel. Um lugar onde convivem entrega, obsess\u00e3o, perda, perman\u00eancia e d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p>Musicalmente, o disco move-se entre o pop alternativo e uma escrita profundamente emocional, sem grande preocupa\u00e7\u00e3o em encaixar r\u00f3tulos. Mas sempre com uma procura constante pela verdade do sentimento acima da f\u00f3rmula, algo que se sente particularmente em temas como \u201cPedra e Cal\u201d, onde o amor surge n\u00e3o como salva\u00e7\u00e3o, mas como algo do qual j\u00e1 n\u00e3o existe verdadeira vontade de fugir.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"352\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/album\/643SfN3GRj0ag78h1BuLCI?si=pGIG9u8KRu21Eby7rH_ezA&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>O mais interessante em <em>Quer Sequeira Quer N\u00e3o<\/em> \u00e9 precisamente essa dimens\u00e3o introspetiva. Lu\u00eds Sequeira parece menos interessado em contar hist\u00f3rias fechadas e mais focado em explorar aquilo que o amor provoca dentro de n\u00f3s: as suas idiossincrasias, os seus excessos e as zonas emocionalmente desconfort\u00e1veis que tantas vezes tentamos evitar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um disco que encontra for\u00e7a na vulnerabilidade. Que n\u00e3o procura respostas definitivas sobre o amor, mas aceita permanecer dentro das suas contradi\u00e7\u00f5es. E talvez seja precisamente a\u00ed que encontra a sua identidade mais s\u00f3lida: na coragem de admitir que, quer se queira quer n\u00e3o, quase tudo na vida acaba por regressar \u00e0 forma como amamos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/7sDZdr3C1diZ5m5BD1pnA4?si=ec5e6fd7fb4049c5&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>O disco abre com <strong>\u201cAmar ou Esquecer\u201d<\/strong> que, como Lu\u00eds j\u00e1 teve oportunidade de referir \u00e9 sobre aquele estado interm\u00e9dio entre duas pessoas que est\u00e3o profundamente ligadas e que vivem dentro dessa tens\u00e3o entre continuar emocionalmente presos ou aceitarem a necessidade dolorosa de seguir em frente. A can\u00e7\u00e3o funciona quase como uma introdu\u00e7\u00e3o ao conflito central do \u00e1lbum: a incapacidade de controlar aquilo que sentimos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/137v9PhbHEMIQ7ZlPwmHMx?si=08f73f856b4246a7&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Em seguida chega-nos <strong>&#8220;Pedra e Cal&#8221;<\/strong> onde o amor surge menos como escolha e mais como condi\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel. Existe uma sensa\u00e7\u00e3o de entrega absoluta, mesmo quando essa entrega parece carregar sofrimento. Lu\u00eds Sequeira explora a ideia de permanecer ligado. \u00c9 uma das can\u00e7\u00f5es onde a vulnerabilidade emocional do \u00e1lbum se torna mais evidente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/0xngJAiES11Qy9tBf7uaW6?si=c173e133e42e4592&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p><strong>\u201cAtr\u00e1s do Tempo\u201d<\/strong> vive da nostalgia e da consci\u00eancia de que certos momentos nunca regressam verdadeiramente. N\u00e3o \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o sobre recuperar o passado, mas sobre a tentativa humana de permanecer emocionalmente ligado a vers\u00f5es antigas de n\u00f3s pr\u00f3prios. Existe uma melancolia constante, n\u00e3o como derrota, mas como reflex\u00e3o sobre aquilo que o tempo inevitavelmente transforma.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/43dgaQf4Kp0K9WNeyjsfVn?si=ad81e05964844955&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Segue-se<strong> &#8220;Medo&#8221;<\/strong>, um dos momentos mais introspectivos do \u00e1lbum. O medo aqui n\u00e3o surge apenas como receio de perder algu\u00e9m, mas tamb\u00e9m como receio de enfrentar a pr\u00f3pria vulnerabilidade. A can\u00e7\u00e3o parece explorar os mecanismos internos que nos levam tantas vezes a proteger-nos precisamente daquilo que mais desejamos viver.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/1rxPrrhw0p3U36GVnyW4nl?si=8dbf14116e8e4c7b&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Dentro do contexto do \u00e1lbum, &#8220;<strong>Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/strong>&#8221; pode ser vista como um confronto entre expectativa e realidade, entre aquilo que imaginamos para a nossa vida emocional e aquilo que realmente encontramos. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/2iIaSaWlo5UTRUwxpEn4rb?si=d4847e62a5d04ba9&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>E, por isso, <strong>&#8220;Preciso de Falar&#8221;<\/strong> representa o momento em que esses sil\u00eancios deixam de ser sustent\u00e1veis. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o sobre a necessidade urgente de comunica\u00e7\u00e3o, sobre aquilo que acontece quando os sentimentos acumulados j\u00e1 n\u00e3o conseguem permanecer apenas dentro do pensamento. Surge quase como um momento de liberta\u00e7\u00e3o emocional dentro do percurso do \u00e1lbum.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/1A2hEHuEIVjH9zQQsSMQgL?si=0afe20252feb4bb3&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Por vezes, deixa de existir controlo verdadeiro sobre a situa\u00e7\u00e3o, <strong>&#8220;N\u00e3o V\u00e1s&#8221;<\/strong> parece existir naquele instante suspenso em que algu\u00e9m ainda tenta impedir uma aus\u00eancia antes que ela se torne definitiva. Sem garantias, existe apenas o desejo humano de prolongar aquilo que sabemos poder estar prestes a ter de desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/0ldXN2KqO2C0JfGwsYuGVf?si=293b48ed71d24166&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>O encerramento do disco funciona quase como uma s\u00edntese emocional de tudo o que veio antes. Depois das d\u00favidas, dos medos, das perdas e das tentativas de compreens\u00e3o, <strong>\u201cSonho\u201d<\/strong> deixa a sensa\u00e7\u00e3o de que algumas respostas talvez nunca cheguem de forma concreta. E talvez isso n\u00e3o seja necessariamente negativo. A can\u00e7\u00e3o termina o percurso num espa\u00e7o mais contemplativo, onde o amor deixa de surgir como problema para resolver e passa a existir como experi\u00eancia que transforma quem a vive.<\/p>\n\n\n\n<p>No conjunto, estas oito composi\u00e7\u00f5es de <em>Quer Sequeira Quer N\u00e3o<\/em> funcionam menos como uma cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es independentes e mais como um percurso emocional cont\u00ednuo. Cada faixa parece representar uma fase diferente da rela\u00e7\u00e3o entre amor, mem\u00f3ria e identidade. O \u00e1lbum n\u00e3o procura explicar o amor, mas procura observar aquilo que ele deixa dentro de n\u00f3s quando j\u00e1 n\u00e3o conseguimos control\u00e1-lo. E talvez seja precisamente essa honestidade emocional que lhe d\u00e1 coer\u00eancia do in\u00edcio ao fim.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo da m\u00fasica tem uma estranha rela\u00e7\u00e3o com o talento. 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