{"id":9786,"date":"2026-06-28T15:41:16","date_gmt":"2026-06-28T14:41:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/?p=9786"},"modified":"2026-06-28T15:55:35","modified_gmt":"2026-06-28T14:55:35","slug":"concert-review-a-garota-nao-art-explora-festival","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/concert-review-a-garota-nao-art-explora-festival\/","title":{"rendered":"[Concert Review] A Garota N\u00e3o @Art Explora Festival"},"content":{"rendered":"<p>O concerto da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/a_garota_nao\/\">A Garota N\u00e3o<\/a> no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/artexplorafestival\/\">Art Explora Festival<\/a> demonstrou, uma vez mais, que a intensidade art\u00edstica raramente depende de superprodu\u00e7\u00f5es ou grandes multid\u00f5es, mas sim da honestidade com que uma voz \u00e9 capaz de confrontar quem a escuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos numa \u00e9poca em que a palavra &#8220;festival&#8221; \u00e9 frequentemente associada a cartazes repletos de nomes, grandes produ\u00e7\u00f5es e milhares de pessoas concentradas num mesmo espa\u00e7o. O Art Explora Festival parte de uma ideia completamente diferente. Em vez de perguntar como podemos levar o p\u00fablico at\u00e9 \u00e0 cultura, pergunta como podemos levar a cultura at\u00e9 \u00e0s pessoas.<\/p>\n\n\n\n<img width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/71B5941A-0BBA-48D4-BE64-1BADB5E0EBA6-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9798\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Criado pela Art Explora Foundation, fundada em 2019 pelo empres\u00e1rio e filantropo franc\u00eas Fr\u00e9d\u00e9ric Jousset, o projeto nasceu da convic\u00e7\u00e3o de que o acesso \u00e0 arte continua profundamente desigual. Depois de uma carreira ligada ao setor tecnol\u00f3gico, Jousset decidiu investir uma parte significativa do seu patrim\u00f3nio na cria\u00e7\u00e3o de iniciativas capazes de aproximar p\u00fablicos que raramente entram num museu, frequentam uma galeria ou participam em grandes eventos culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>O elemento mais vis\u00edvel dessa vis\u00e3o \u00e9 o ArtExplorer, apresentado como o primeiro navio-museu do mundo. Mais do que uma embarca\u00e7\u00e3o, funciona como uma plataforma cultural em permanente movimento. Entre 2024 e 2026 percorre dezenas de cidades mediterr\u00e2nicas, transformando cada escala numa oportunidade para aproximar diferentes comunidades atrav\u00e9s da arte, da m\u00fasica, do cinema, das performances, da realidade virtual, das conversas e da cria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Tudo com entrada gratuita, numa filosofia que coloca o acesso \u00e0 cultura acima de qualquer l\u00f3gica comercial.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o surpreende, por isso, que artistas como A Garota N\u00e3o encontrem neste contexto um palco particularmente natural, pese embora as d\u00favidas que a mesma transmitiu durante o concerto. A m\u00fasica de C\u00e1tia Mazari Oliveira vive da observa\u00e7\u00e3o do quotidiano, da mem\u00f3ria coletiva e da reflex\u00e3o sobre a sociedade. O festival, por sua vez, procura precisamente devolver \u00e0 arte esse lugar de encontro e participa\u00e7\u00e3o. Mais do que acolher concertos, cria um espa\u00e7o onde diferentes formas de express\u00e3o dialogam entre si e com quem as vive.<\/p>\n\n\n\n<img width=\"700\" height=\"933\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2C3DA64D-7029-467A-83A2-248938223BFF-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9789\" srcset=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2C3DA64D-7029-467A-83A2-248938223BFF-1.jpg 700w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2C3DA64D-7029-467A-83A2-248938223BFF-1-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2C3DA64D-7029-467A-83A2-248938223BFF-1-9x12.jpg 9w\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, C\u00e1tia construiu uma das identidades mais relevantes da m\u00fasica portuguesa contempor\u00e2nea. Atrav\u00e9s do projeto A Garota N\u00e3o, transformou a can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o num espa\u00e7o onde a poesia, a vulnerabilidade e a cr\u00edtica social coexistem sem nunca perder humanidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Logo no in\u00edcio do concerto, a artista fez quest\u00e3o de assumir uma das contradi\u00e7\u00f5es que sentia. Confessou que lhe causava estranheza, sendo oriunda do Bairro 2 de Abril, em Set\u00fabal, atuar na Marina de Cascais. <\/p>\n\n\n\n<img src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/718F7107-2167-4740-8F9D-F73224F07341-576x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9788\" width=\"494\" height=\"879\" \/>\n\n\n\n<p>Da plateia surgiu de imediato a resposta: &#8220;Em Cascais tamb\u00e9m h\u00e1 revolucion\u00e1rios.&#8221; A frase foi recebida com um sorriso e acabou por definir o ambiente da noite. O concerto transformou-se rapidamente num di\u00e1logo entre palco e p\u00fablico, onde os aplausos n\u00e3o surgiam apenas no final das can\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m ap\u00f3s muitas das palavras que as antecediam.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e1tia agradeceu o convite, elogiou o conceito do festival e a forma como foi recebida, mas acrescentou que talvez existissem outros portos em Portugal onde o acesso \u00e0 cultura fosse mais urgente. Foi uma interven\u00e7\u00e3o breve, mas suficiente para recordar que, em A Garota N\u00e3o, o palco nunca \u00e9 apenas um lugar para cantar. \u00c9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o para pensar e intervir.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre acompanhada pela enorme sensibilidade musical de S\u00e9rgio Miendes, Diogo Arranja e Jo\u00e3o Mota, A Garota N\u00e3o percorreu alguns dos momentos mais marcantes do seu repert\u00f3rio. N\u00e3o faltaram temas como &#8220;Dil\u00favio&#8221;, &#8220;O Pr\u00e9dio Mais Alto&#8221; ou &#8220;Urgentemente&#8221;, mas houve tamb\u00e9m espa\u00e7o para apresentar v\u00e1rias composi\u00e7\u00f5es de <em>Ferry Gold<\/em>, como &#8220;A casa de Bernarda Alba&#8221;, com que abriu o concerto, bem como, &#8220;Este Pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 para m\u00e3es&#8221;, &#8220;Levante-se uma Escola&#8221;, &#8220;Falemos das Cartas&#8221; ou &#8220;Alaska&#8221; com poema de Jo\u00e3o Quadros.<\/p>\n\n\n\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ecletismomusical\/\"><img width=\"861\" height=\"389\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/garota11.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9792\" srcset=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/garota11.jpg 861w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/garota11-300x136.jpg 300w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/garota11-768x347.jpg 768w, https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/garota11-18x8.jpg 18w\" \/><\/a>Reels dispon\u00edveis AQU I<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ecletismomusical\/\">https:\/\/www.instagram.com\/ecletismomusical\/<\/a>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos momentos mais marcantes chegou precisamente com &#8220;Ferry Gold&#8221;. Partindo das mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia de C\u00e1tia em Tr\u00f3ia, a can\u00e7\u00e3o transforma-se numa reflex\u00e3o sobre a privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, a desigualdade e a forma como paisagens que julg\u00e1vamos pertencer a todos acabam, lentamente, por deixar de o fazer. Num festival cuja identidade nasce de um barco que percorre o Mediterr\u00e2neo para democratizar o acesso \u00e0 cultura, a can\u00e7\u00e3o ganhou uma dimens\u00e3o quase simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m &#8220;Mediterr\u00e2neo&#8221; encontrou um enquadramento particularmente forte. Enquanto o Art Explora utiliza um navio para aproximar povos atrav\u00e9s da cultura, a can\u00e7\u00e3o recorda o outro lado desse mesmo mar: o das milhares de pessoas que arriscam a vida na tentativa de alcan\u00e7ar a Europa. Dois barcos. Dois destinos profundamente diferentes. Um dedicado ao encontro entre culturas. Outro tornado s\u00edmbolo da desesperan\u00e7a de quem procura simplesmente sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<img width=\"576\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FC710AE7-4A7B-40FA-B80B-C1BC1F8953E0-576x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9799\" \/>\n\n\n\n<p>Houve igualmente espa\u00e7o para a poderosa reinterpreta\u00e7\u00e3o de &#8220;No Love&#8221;, de Allen Halloween, para &#8220;422 Milh\u00f5es&#8221;, onde os lucros milion\u00e1rios convivem com uma reflex\u00e3o sobre desigualdade, para &#8220;Can\u00e7\u00e3o Sem Final&#8221;, onde C\u00e1tia lembra que &#8220;podem decretar o fim da arte\/E a gente faz uma can\u00e7\u00e3o sobre isso&#8221;, e para &#8220;Os Meus Mortos&#8221;, composi\u00e7\u00e3o constru\u00edda a partir da obra de Manuel Ant\u00f3nio Pina para o espet\u00e1culo <em>Falsas Hist\u00f3rias Verdadeiras: Uma Pina Colagem<\/em>, com dire\u00e7\u00e3o de V\u00edtor Hugo Pontes.<\/p>\n\n\n\n<p>Num tempo em que a velocidade das redes sociais parece exigir respostas imediatas para todas as quest\u00f5es, A Garota N\u00e3o continua a lembrar-nos que algumas das perguntas mais importantes n\u00e3o procuram solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas. Precisam apenas de ser colocadas com honestidade. Talvez seja precisamente essa a fun\u00e7\u00e3o maior da arte: n\u00e3o oferecer certezas, mas devolver-nos a capacidade de olhar para o mundo com uma sensibilidade que, tantas vezes, esquecemos possuir.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O concerto da A Garota N\u00e3o no Art Explora Festival demonstrou, uma vez mais, que a intensidade art\u00edstica raramente depende de superprodu\u00e7\u00f5es ou grandes multid\u00f5es, mas sim da honestidade com que uma voz \u00e9 capaz de confrontar quem a escuta. 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