{"id":9851,"date":"2026-07-27T18:03:19","date_gmt":"2026-07-27T17:03:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/?p=9851"},"modified":"2026-07-27T18:03:10","modified_gmt":"2026-07-27T17:03:10","slug":"concert-review-a-garota-nao-festival-musicas-do-mundo-sines-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/concert-review-a-garota-nao-festival-musicas-do-mundo-sines-2026\/","title":{"rendered":"[Concert Review] A Garota N\u00e3o @Festival M\u00fasicas do Mundo, Sines 2026"},"content":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos depois da estreia no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fmm_sines\/\">Festival M\u00fasicas do Mundo<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/a_garota_nao\/\">A Garota N\u00e3o<\/a> regressou ao Castelo de Sines com um espet\u00e1culo que revelou muito mais do que a evolu\u00e7\u00e3o de um repert\u00f3rio. Perante um recinto cheio, participativo e dispon\u00edvel para responder a cada provoca\u00e7\u00e3o, C\u00e1tia Mazari Oliveira voltou a demonstrar uma das caracter\u00edsticas que mais tem definido o seu percurso: a coragem de dizer aquilo em que acredita, mesmo quando o contexto poderia &#8220;aconselhar&#8221; maior prud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando atuou no FMM em 2023, A Garota N\u00e3o chegava impulsionada pelo impacto de <em>2 de Abril<\/em>, o \u00e1lbum que a confirmou como uma das vozes fundamentais da can\u00e7\u00e3o portuguesa contempor\u00e2nea. Regressou agora depois de <em>Ferry Gold<\/em>, um disco mais extenso, fragmentado e aberto ao mundo, constru\u00eddo a partir de textos, not\u00edcias, discursos, imagens, batidas e outras mat\u00e9rias recolhidas do presente. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dsBt844Bjd8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 tinha contado no concerto realizado no m\u00eas passado, na Marina de Cascais, integrada no Art Explora Festival: dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/concert-review-a-garota-nao-art-explora-festival\/?swcfpc=1\">AQUI<\/a>, este regresso ao FMM adquiria um significado particular por acontecer depois da edi\u00e7\u00e3o de \u201c422\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Na can\u00e7\u00e3o, C\u00e1tia escreve sobre os lucros apresentados pela Galp e sobre a dist\u00e2ncia entre os resultados das grandes empresas e a realidade econ\u00f3mica de quem continua a pagar o pre\u00e7o: \u201cA subida \u00e9 prato do dia \/ Tanto imposto barriga vazia \/ E esta raiva que juntos calamos \/ Faz crescer a m\u00e3o dos soberanos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Galp \u00e9 o principal patrocinador do FMM e, talvez, poucos dos presentes se tenham apercebido de que, enquanto o palco era montado, \u201c422\u201d tocava em fundo. O detalhe funcionou como uma esp\u00e9cie de cart\u00e3o de visita para aquilo que se seguiria: um concerto corajoso, disruptivo e assente numa ideia que atravessa toda a obra de C\u00e1tia. A verdade n\u00e3o se compra, e o talento consegue encher festivais mesmo quando aquilo que \u00e9 cantado poder\u00e1 n\u00e3o agradar aos \u201csoberanos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A inclus\u00e3o de \u201c422\u201d no alinhamento acabou por confirmar que n\u00e3o haveria qualquer tentativa de contornar o desconforto. C\u00e1tia n\u00e3o se limitou a interpretar a m\u00fasica; apresentou-a, contextualizou-a e explicou detalhadamente as raz\u00f5es que estiveram na sua origem, criando um dos momentos de maior interven\u00e7\u00e3o da noite. <\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00fablico respondeu com a mesma disponibilidade que manteve durante todo o espet\u00e1culo, demonstrando que a can\u00e7\u00e3o de protesto n\u00e3o pertence apenas a uma mem\u00f3ria distante da m\u00fasica portuguesa. Continua a ter mat\u00e9ria, destinat\u00e1rios e raz\u00f5es suficientes para existir no presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esta noite especial, C\u00e1tia juntou aos seus companheiros habituais: S\u00e9rgio Mendes, Jo\u00e3o Mota e Diogo Arranja, tr\u00eas vozes extraordin\u00e1rias: Joana Alegre, Orlanda Vasconcelos Guilande e B\u00e1rbara Wahnon. A presen\u00e7a das tr\u00eas cantoras acrescentou profundidade, corpo e dimens\u00e3o \u00e0s composi\u00e7\u00f5es, transformando momentos habitualmente mais \u00edntimos em experi\u00eancias de verdadeira for\u00e7a coletiva. <\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que um simples refor\u00e7o harm\u00f3nico, as vozes criaram novas texturas e acentuaram a natureza plural de uma obra que, mesmo quando nasce de uma experi\u00eancia individual, procura quase sempre representar muitas outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"352\" frameborder=\"0\" allowfullscreen src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/artist\/7uCICyVlZh7EL1y4QLbNi0?utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o coletiva permitiu que o concerto atravessasse diferentes territ\u00f3rios sem se transformar numa sucess\u00e3o dispersa de temas. A interven\u00e7\u00e3o social, a mem\u00f3ria familiar, a homenagem a outras vozes e a dimens\u00e3o po\u00e9tica surgiram como partes da mesma viagem, unidas por uma interpreta\u00e7\u00e3o que nunca separa completamente a intimidade da pol\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p>Foi, acima de tudo, uma celebra\u00e7\u00e3o da Liberdade e de esperan\u00e7a por um mundo melhor, um mundo em que o que parece \u00f3bvio se transforme em regra e em que o extremo ignorante perca territ\u00f3rio para o amor, nas suas mais diversas express\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As can\u00e7\u00f5es de C\u00e1tia identificam aquilo que falha, d\u00e3o nome \u00e0s estruturas que condicionam a vida comum e devolvem presen\u00e7a a pessoas habitualmente colocadas fora da narrativa, mas recusam ficar aprisionadas pelo desespero. H\u00e1 nelas uma vontade de transforma\u00e7\u00e3o e a convic\u00e7\u00e3o de que cantar tamb\u00e9m pode reunir pessoas e preservar a capacidade de sonhar quando a realidade insiste em tornar o futuro mais estreito.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de material de <em>A Vulgar Mulher Extraordin\u00e1ria<\/em>, (que C\u00e1tia anunciou estar a ser gravado) ainda desconhecido por parte significativa do p\u00fablico, foi essencial para ampliar esse universo. Ao partir da vida da m\u00e3e para chegar \u00e0s hist\u00f3rias de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de mulheres, C\u00e1tia aproxima a biografia individual da mem\u00f3ria coletiva. As grandes quest\u00f5es pol\u00edticas deixam de existir apenas nos parlamentos, nas estat\u00edsticas ou nos discursos p\u00fablicos e regressam \u00e0s cozinhas, \u00e0s f\u00e1bricas, \u00e0s casas, aos trabalhos invis\u00edveis e aos sil\u00eancios transmitidos entre gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m as vers\u00f5es dos artistas que a inspiraram, integradas numa forma reduzida do medley criado para celebrar o 25 de Abril e estreado em Leiria com o Coro das Mulheres da F\u00e1brica: review dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/concert-review-a-garota-nao-c-coro-das-mulheres-da-fabrica-teatro-jose-lucio-da-silva-leiria\/?swcfpc=1\">AQUI<\/a>, ajudaram a mostrar que a linguagem de C\u00e1tia nunca foi constru\u00edda no isolamento. <\/p>\n\n\n\n<p>Para muitos dos presentes, depois de cantarem \u201cOs Vampiros\u201d de Zeca Afonso ou &#8220;Que For\u00e7a \u00e9 essa&#8221; de S\u00e9rgio Godinho, gritar \u201cAnd now you do what they told ya\u201d, de \u201cKilling in the Name\u201d, dos Rage Against the Machine, ter\u00e1 sido uma inesperada mudan\u00e7a de registo. <\/p>\n\n\n\n<p>Para C\u00e1tia, foi sobretudo uma forma de continuar a reconhecer aqueles que tamb\u00e9m fizeram da m\u00fasica um territ\u00f3rio de luta e cuja coragem continua a alimentar quem hoje procura novos modos de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do concerto, C\u00e1tia escreveu que tinha subido ao palco com \u201ca garganta toda arrombada de uma semana fr\u00e1gil\u201d. Essa revela\u00e7\u00e3o poderia transformar retroativamente a atua\u00e7\u00e3o numa narrativa de sacrif\u00edcio individual ou de supera\u00e7\u00e3o f\u00edsica. <\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a pr\u00f3pria recusou esse enquadramento atrav\u00e9s de uma frase que resume muito daquilo que A Garota N\u00e3o representa: quando se entra no palco do FMM, \u201cn\u00e3o h\u00e1 dor (nem patrocinador) que nos fa\u00e7a cantar baixinho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A frase prolonga naturalmente o significado de \u201c422\u201d e reafirma a decis\u00e3o de permanecer fiel ao que acredita. Depois de um concerto recebido com entusiasmo por um Castelo de Sines cheio, C\u00e1tia n\u00e3o procurou suavizar a provoca\u00e7\u00e3o nem esconder o contexto em que cantara. <\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio: lembrou que nem as dificuldades f\u00edsicas nem os interesses que rodeiam um festival ser\u00e3o suficientes para diminuir uma voz quando ela considera que existe alguma coisa que precisa de ser dita.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a garganta estava ferida, o concerto encontrou for\u00e7a na comunidade que a rodeava. Ao agradecer a Joana Alegre, Orlanda Guilande e B\u00e1rbara Wahnon, C\u00e1tia descreveu-as como uma retaguarda cujo lugar deveria estar igualmente ali \u00e0 frente. <\/p>\n\n\n\n<p>A frase foi mais do que um gesto de generosidade. Revelou a pr\u00f3pria arquitetura do espet\u00e1culo: as vozes que acompanharam A Garota N\u00e3o n\u00e3o estavam em palco como decora\u00e7\u00e3o ou mero suporte, mas como presen\u00e7as aut\u00f3nomas que acrescentaram perspetivas, corpos e for\u00e7a a uma m\u00fasica que sempre procurou falar no plural.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo se aplica a S\u00e9rgio Mendes, Jo\u00e3o Mota e Diogo Arranja, m\u00fasicos com quem C\u00e1tia partilha uma cumplicidade capaz de acompanhar todas as mudan\u00e7as de intensidade das can\u00e7\u00f5es. Entre a conten\u00e7\u00e3o e a explos\u00e3o, a palavra e o ru\u00eddo, a intimidade e a celebra\u00e7\u00e3o, a banda permitiu que o espet\u00e1culo mantivesse uma enorme unidade, mesmo quando atravessava materiais nascidos em momentos e contextos art\u00edsticos diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e1tia agradeceu igualmente a Carlos Seixas por aquilo a que chamou \u201ceste sonho de resist\u00eancia chamado FMM\u201d. A express\u00e3o descreve bem a rela\u00e7\u00e3o entre a artista e o festival. O FMM continua a ser um lugar onde a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 tratada como ornamento, onde a m\u00fasica \u00e9 apresentada como possibilidade de encontro e onde projetos afastados das f\u00f3rmulas mais previs\u00edveis conseguem encontrar um p\u00fablico dispon\u00edvel para escutar. <\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a maior conquista do concerto tenha sido precisamente essa: demonstrar que a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina a beleza, que a poesia n\u00e3o enfraquece a mensagem e que a esperan\u00e7a n\u00e3o obriga a ignorar a realidade. A cantiga pode continuar a ser uma arma, mas n\u00e3o apenas de den\u00fancia. Pode ser uma arma de esperan\u00e7a, capaz de transformar a inquieta\u00e7\u00e3o individual numa experi\u00eancia coletiva e de lembrar que a cr\u00edtica ao mundo tamb\u00e9m pode nascer do amor por aquilo que ele ainda poder\u00e1 vir a ser.<\/p>\n\n\n\n<p>A Garota N\u00e3o regressou assim ao FMM com uma garganta fragilizada (algo que n\u00e3o se notou na sua voz), mas acompanhada por uma estrutura humana e musical capaz de transformar essa vulnerabilidade numa for\u00e7a partilhada. Num festival patrocinado por uma empresa diretamente visada numa das suas can\u00e7\u00f5es, C\u00e1tia escolheu n\u00e3o evitar o confronto, n\u00e3o reduzir a intensidade e n\u00e3o cantar mais baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque h\u00e1 momentos em que cantar baixinho seria apenas outra forma de sil\u00eancio. E A Garota N\u00e3o continua a saber que certas can\u00e7\u00f5es existem precisamente para o interromper.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos depois da estreia no Festival M\u00fasicas do Mundo, A Garota N\u00e3o regressou ao Castelo de Sines com um espet\u00e1culo que revelou muito mais do que a evolu\u00e7\u00e3o de um repert\u00f3rio. 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