{"id":9876,"date":"2026-07-31T21:20:50","date_gmt":"2026-07-31T20:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/?p=9876"},"modified":"2026-07-31T21:20:56","modified_gmt":"2026-07-31T20:20:56","slug":"rip-glen-hansard-1970-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecletismomusical.pt\/en\/rip-glen-hansard-1970-2026\/","title":{"rendered":"[RIP] Glen Hansard (1970 \u20132026)"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 m\u00fasicos cuja morte encerra uma carreira. A de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/glenhansard\/\">Glen Hansard<\/a> parece interromper uma conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma conversa iniciada nas ruas de Dublin, quando era ainda adolescente e cantava para quem passava, muito antes de existirem \u00d3scares, digress\u00f5es internacionais ou salas cheias. Glen nunca perdeu completamente essa origem. Mesmo quando subia aos maiores palcos, continuava a existir nele qualquer coisa do m\u00fasico de rua: a necessidade de conquistar cada pessoa individualmente, a recusa em tratar o p\u00fablico como uma massa an\u00f3nima e a convic\u00e7\u00e3o de que uma can\u00e7\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 verdadeiramente terminada quando encontra algu\u00e9m disposto a receb\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Rflvo1DVUKc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Glen Hansard morreu a 29 de julho de 2026, aos 56 anos, na sequ\u00eancia de um acidente de mota nos arredores de Dublin. A not\u00edcia interrompeu uma vida ainda plenamente ativa, deixando a m\u00fasica irlandesa sem uma das suas vozes mais reconhec\u00edveis e a cidade sem uma figura que se tornara insepar\u00e1vel das suas ruas, dos seus m\u00fasicos e da sua consci\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Yh0i97Ohas4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Nascido em Ballymun, em Dublin, Hansard come\u00e7ou a tocar nas ruas ainda jovem e transportou essa experi\u00eancia para tudo o que viria depois. Em 1990, fundou os The Frames, banda que se tornaria fundamental para compreender o rock irland\u00eas das d\u00e9cadas seguintes. O percurso esteve longe de ser imediato ou simples. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m em 1991, Glen apareceu em <em>The Commitments<\/em>, de Alan Parker, interpretando o guitarrista Outspan Foster. O filme tornar-se-ia uma obra central do imagin\u00e1rio musical irland\u00eas, mas Hansard nunca se deixou transformar prioritariamente em ator. A representa\u00e7\u00e3o permaneceu uma passagem; a m\u00fasica continuava a ser o lugar onde encontrava a sua verdadeira linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre cinema, cidade e can\u00e7\u00e3o regressaria de forma decisiva em <em>Once<\/em>. Realizado por John Carney, antigo baixista dos The Frames, o filme apresentava Hansard e Mark\u00e9ta Irglov\u00e1 como dois m\u00fasicos an\u00f3nimos que se encontram em Dublin e descobrem, atrav\u00e9s das can\u00e7\u00f5es, uma intimidade que a vida quotidiana dificilmente lhes permitiria construir. Filmado com meios reduzidos e sem a grandiosidade habitual das hist\u00f3rias de amor cinematogr\u00e1ficas, <em>Once<\/em> parecia compreender algo essencial sobre a m\u00fasica: por vezes, duas pessoas n\u00e3o precisam de permanecer juntas para mudarem definitivamente a vida uma da outra.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K4uFFNl6FQ4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>\u201cFalling Slowly\u201d, composta por Hansard e Irglov\u00e1, conquistou o \u00d3scar de Melhor Can\u00e7\u00e3o Original em 2008. O pr\u00e9mio poderia ter alterado a natureza de Glen, afastando-o das salas pequenas, das atua\u00e7\u00f5es improvisadas e da rela\u00e7\u00e3o direta com quem o escutava. Aconteceu quase o contr\u00e1rio. O reconhecimento internacional ampliou o seu alcance, mas n\u00e3o eliminou a sensa\u00e7\u00e3o de que continuava a cantar como quem est\u00e1 numa rua de Dublin, diante de pessoas que podem parar ou continuar a caminhar.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k8mtXwtapX4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Com Mark\u00e9ta Irglov\u00e1 formou tamb\u00e9m os The Swell Season, prolongando fora do cinema a cumplicidade musical que tornara <em>Once<\/em> t\u00e3o especial. A delicadeza da voz e do piano de Irglov\u00e1 encontrava na intensidade de Hansard um contraste que nunca parecia oposi\u00e7\u00e3o. As can\u00e7\u00f5es viviam precisamente desse equil\u00edbrio entre duas maneiras diferentes de ocupar o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>A carreira a solo, iniciada com <em>Rhythm and Repose<\/em> em 2012, continuou com trabalhos como <em>Didn\u2019t He Ramble<\/em>, nomeado para um Grammy, <em>Between Two Shores<\/em>, <em>This Wild Willing<\/em> and <em>All That Was East Is West of Me Now<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ln0DccgkUTo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Glen Hansard nunca cantou como algu\u00e9m que acreditasse que todas as feridas possuem uma explica\u00e7\u00e3o. As suas can\u00e7\u00f5es reconheciam a perda, a culpa, o amor, o desejo e a esperan\u00e7a como for\u00e7as frequentemente contradit\u00f3rias. N\u00e3o procuravam corrigir a fragilidade humana, mas criar um lugar onde ela pudesse ser admitida sem vergonha. Havia nelas uma espiritualidade sem doutrina, nascida menos da certeza do que da disponibilidade para continuar a procurar.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa proximidade n\u00e3o terminou quando os concertos acabavam. Glen permaneceu ligado \u00e0 realidade social de Dublin, sobretudo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das pessoas sem-abrigo. A tradicional atua\u00e7\u00e3o de rua na v\u00e9spera de Natal, que reunia m\u00fasicos conhecidos para apoiar a Dublin Simon Community, tornou-se uma das express\u00f5es mais vis\u00edveis dessa preocupa\u00e7\u00e3o. O homem que come\u00e7ara a cantar nas ruas regressava a elas n\u00e3o para recriar romanticamente o in\u00edcio da carreira, mas para utilizar a aten\u00e7\u00e3o conquistada em benef\u00edcio de quem continuava a viver nelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa coer\u00eancia talvez explique a dimens\u00e3o da perda sentida na Irlanda. Glen Hansard n\u00e3o era apenas um m\u00fasico irland\u00eas bem-sucedido no estrangeiro. Pertencia \u00e0 vida cultural e humana de Dublin. Podia receber um \u00d3scar e, anos depois, voltar a aparecer numa rua, num pub ou numa cerim\u00f3nia dedicada a uma figura da cultura irlandesa, cantando como se aquele momento fosse t\u00e3o importante quanto qualquer palco internacional.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YDNRF1nZO3E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a sua vida tinha adquirido uma nova dimens\u00e3o atrav\u00e9s do casamento com a poeta finlandesa Maire Saaritsa e do nascimento do filho, Christy. N\u00e3o parecia algu\u00e9m a organizar retrospectivamente o pr\u00f3prio legado. Parecia algu\u00e9m ainda no interior da vida, com can\u00e7\u00f5es para escrever, pessoas a quem regressar e caminhos por percorrer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 talvez essa a parte mais dif\u00edcil de aceitar numa morte t\u00e3o inesperada. Glen Hansard n\u00e3o deixa apenas uma obra conclu\u00edda. Deixa a sensa\u00e7\u00e3o de uma voz interrompida a meio de uma frase. Uma can\u00e7\u00e3o cuja intensidade parecia anunciar ainda muitos outros versos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a m\u00fasica tem uma rela\u00e7\u00e3o particular com a aus\u00eancia. Depois da morte de quem a criou, deixa de pertencer apenas \u00e0 biografia do artista e passa definitivamente para a vida de quem a escutou. Glen Hansard passou a vida a transformar encontros em can\u00e7\u00f5es. A sua morte deixa agora uma cidade, uma comunidade musical, uma fam\u00edlia e milhares de ouvintes diante do sil\u00eancio imposs\u00edvel de um \u00faltimo adeus.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lghQVdUFu14?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Mas enquanto algu\u00e9m voltar a pegar numa guitarra numa rua de Dublin e acreditar que uma can\u00e7\u00e3o pode fazer uma pessoa parar, Glen continuar\u00e1, de alguma maneira, a fazer parte da conversa.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 m\u00fasicos cuja morte encerra uma carreira. A de Glen Hansard parece interromper uma conversa. Uma conversa iniciada nas ruas de Dublin, quando era ainda adolescente e cantava para quem passava, muito antes de existirem \u00d3scares, digress\u00f5es internacionais ou salas cheias. Glen nunca perdeu completamente essa origem. 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