O Festival Iminente celebrou dez anos entre 17 e 20 de setembro, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, com quatro dias de música, artes visuais e encontros entre diferentes expressões da cultura urbana. O alinhamento aproximou gerações, línguas e formas de criação, dando espaço ao hip-hop, à canção portuguesa, à eletrónica e à experimentação.
Num tempo em que se procura tantas vezes reduzir a identidade a uma origem, uma língua ou uma maneira de viver, a existência de um festival multicultural tem uma importância que merece ser destacada para além da qualidade do cartaz. A música permite uma aproximação que o debate público nem sempre consegue produzir e, ainda que essa experiência não resolva preconceitos por si só, oferece uma oportunidade concreta de os contrariar.
Talvez seja por isso que o Iminente importa particularmente nos tempos que vivemos. Quando se insiste em explicar uma sociedade através de fronteiras entre quem pertence e quem chegou, entre uma identidade supostamente fixa e tudo aquilo que a poderá ameaçar, a música devolve complexidade às pessoas, apesar de lhes dar algo comum: a emoção.
A abertura teve, entre outros, em Capicua, Mind da Gap e Sam The Kid três expressões distintas da maturidade do hip-hop português. Capicua cruzou Um Gelado Antes do Fim do Mundo com temas de outras fases, incluindo “Medo do Medo” e “Maria Capaz”. Os Mind da Gap recuperaram “Todos Gordos”, “Dedicatória” e “Bazamos ou Ficamos”, recebendo Sam The Kid em “És Onde Quero Estar” e Valete em “Não Pára”. A apresentação de Beats Vol. 1: Amor com Orelha Negra e orquestra que Sam The Kid trouxe ao festival acrescentou outra dimensão ao momento, ainda que num formato longe do habitual para o padrão festival.
Ana Lua Caiano e Gisela João ampliaram esse diálogo através da voz, da eletrónica e da canção de intervenção. Puçanga, Planeta Manas e Mindel Reggae Family abriram outros caminhos, entre experimentação, clubbing e reggae. A primeira noite deixava assim uma ideia clara: a identidade musical portuguesa permite muito mais aproximações do que as divisões habituais dos cartazes fazem supor.x
Na sexta-feira, a diversidade passou também pelas diferentes maneiras de construir um espetáculo. Minguito trouxe a energia do drill; Libra, uma artista com uma qualidade vocal rara e letras poderosas, apresentou um formato concentrado na voz e na bateria; AJULLIACOSTA conjugou interpretação e dança. Xullaji, (um dos melhores concertos do festival) e Ghoya deram força à palavra política, enquanto Herlander explorou uma presença performativa ligada ao universo digital e Black Milk acrescentou a relação entre produção e interpretação. Estas propostas permitiram reconhecer um hip-hop em permanente transformação, capaz de preservar a importância da escrita e de experimentar outras formas de comunicação.
É nesta convivência entre linguagens que a dimensão multicultural do Iminente ganha sentido. Um festival pode ajudar-nos a reconhecer a complexidade de um país que nenhuma definição estreita de identidade consegue abranger. A língua em que alguém canta, o bairro de onde vem ou as referências que transporta fazem parte de uma história, mas não esgotam aquilo que essa pessoa pode criar e ouvir implica aceitar essa liberdade. Num tempo em que a diferença serve tantas vezes de argumento para a exclusão, oferecer espaço à expressão individual e coletiva tem um valor que ultrapassa o entretenimento.
O sábado levou essa amplitude a um dos seus pontos mais interessantes. La Familia Gitana trouxe a tradição musical cigana do Bairro do Fim do Mundo, enquanto Dino D’Santiago recebeu Luedji Luna em “Oh Bahia”, Lena D’Água encantou com a sua vitalidade, já Vado MKA e Real Guns acrescentaram diferentes expressões do rap crioulo, enquanto Red Chikas e JJ 2000 Fantasmas deram visibilidade a percursos femininos que também pertencem à história do género.
Conway The Machine e DJ Premier estabeleceram outras relações com a memória do hip-hop. A programação tinha, contudo, uma abundância difícil de acompanhar, mas muito comum em festivais que pretendem apresentar um leque variado e eclético de artistas. Para o ano, o Iminente estará de volta e, certamente, alguns dos problemas técnicos/som que existiram este ano, ainda que não sendo suficientes para comprometer os espectáculos, estarão corrigidos.
No último dia, destaque natural para a intervenção sempre acutilante da A Garota Não e para os históricos Micro, a festejarem os 30 anos deram um concerto cheio de energia no Palco Choque. Enquanto Luedji Luna, os Mão Morta, Batida e o Expresso Transatlântico encerraram quatro dias de Ecletismo, diversidade e comunhão, num Festival que conseguiu, num novo espaço, voltar a demonstrar toda a sua pecularidade e missão.
Aos dez anos, o Iminente conserva assim uma proposta cultural reconhecível e uma capacidade importante de pôr públicos e linguagens em contacto. A exigência sobre o som, o cumprimento dos horários, os preços exagerados para alimentação/bebida num Festival que se quer mais inclusivo (ainda que, nos dias que correm, sem um patrocinador a dar o nome ao festival, torna-se muito difícil manter a independência e os preços baixos. Ainda que, deixa-se o destaque positivo para algumas propostas culinárias feitas pelos representantes de alguns dos bairros da zona de Marvila/Chelas).
O Iminente tem uma identidade muito própria e continua a ter o raro poder de cruzar arte, música e expressão dramática, num espaço urbano abandonado. O que fica desta edição é a possibilidade de uma cidade se conhecer melhor através daquilo que os seus artistas e comunidades têm para dizer. Entre os destaques conhecidos e uma voz descoberta pela primeira vez, pode começar uma relação que sobreviva ao festival. É nessa continuidade, feita de atenção e curiosidade, que o encontro ganha futuro.
No Comments Yet!
You can be first to comment this post!