Publicado a 30 de outubro, o aftermovie oficial do Sziget 2026 encerra simbolicamente uma edição de transição e começa, ao mesmo tempo, a construir a narrativa de 2027. Intitulado Discover The Island Of Freedom, o filme transforma em cerca de dez minutos os cinco dias principais do festival numa sucessão de concertos, encontros, abraços, corpos em movimento, instalações artísticas e personagens que parecem pertencer a uma realidade paralela. É uma memória cuidadosamente montada, mas também uma declaração de intenções para um Sziget que regressou a mãos húngaras, recebeu entre 350 e 360 mil pessoas e acaba de entregar a liderança executiva a Anna Filutás.
Essa escolha corresponde ao melhor que se viveu na ilha em 2026. Florence + The Machine, Twenty One Pilots, Zara Larsson, Sombr, Lewis Capaldi, Underworld, Dijon, Black Country, New Road, Natasha Bedingfield, Skrillex ou Jorja Smith construíram alguns dos momentos mais concorridos, mas nenhuma atuação consegue explicar isoladamente o fascínio do Sziget.
A identidade do festival, como o Ecletismo Musical teve oportunidade de escrever, continua a revelar-se durante as deslocações entre palcos, quando uma instalação interrompe o caminho, um espetáculo surge entre as árvores ou uma pequena multidão se forma à volta de algo que não constava do plano inicial.
O filme percebe isso quando abre espaço para o circo, o teatro, a dança, o cinema ao ar livre, o Magic Mirror e as várias comunidades que ocupam a ilha sem terem de justificar a sua presença. A edição ficou abaixo da meta de público inicialmente apontada mas a menor afluência produziu, contudo, um efeito contraditório.
Representou um problema comercial, mas devolveu espaço ao recinto, tornando mais fácil circular, encontrar sombra, aproximar-se de alguns palcos e descobrir áreas que, noutras edições, eram engolidas pela multidão. O Sziget de 2026 respirou melhor precisamente porque recebeu menos pessoas do que desejava. O desafio de 2027 será crescer sem voltar a transformar essa liberdade de movimentos numa corrida permanente entre filas e concentrações excessivas.
A escolha de Anna Filutás para CEO deve ser lida dentro deste processo de voltar ao que tornou o Sziget como memorável. Não se trata de alguém recrutado exteriormente para impor uma reinvenção abstrata, mas sim alguém que trabalha há mais de uma década no universo Sziget, participou no planeamento e produção do Balaton Sound e do VOLT e ocupava, mais recentemente, a área de desenvolvimento de negócio do grupo.
A mudança não se limita ao nome colocado no topo da estrutura. Tamás Kádár abandona a função executiva depois de cerca de quinze anos, permanecendo ligado ao projeto ao nível da administração. Károly Gerendai, fundador do Sziget e figura central no regresso à propriedade húngara, preside ao novo conselho estratégico. A intenção declarada é separar com maior clareza a gestão diária das decisões dos proprietários.
O Sziget regressa entre 10 e 14 de agosto de 2027, novamente com cinco dias. O cartaz será decisivo para recuperar público estrangeiro, mas não deverá ser confundido com a solução completa. Entrar numa disputa pelos mesmos cabeças de cartaz que circulam entre dezenas de festivais europeus é uma estratégia cara e facilmente replicável. O que ninguém consegue transportar para outro recinto é a combinação entre a ilha, Budapeste, a comunidade internacional, a programação artística paralela e a sensação de que cada pessoa pode encontrar uma versão diferente do mesmo festival.
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