Formados no Porto em 1996, os Dealema são um dos grupos mais duradouros e influentes do Hip-Hop português. O colectivo reúne Mundo Segundo, Maze, Fuse, Expeão e DJ Guze, mantendo a mesma formação desde o início e construindo ao longo de décadas uma obra marcada por rimas densas, consciência social e uma forte identidade dentro da cultura Hip-Hop nacional.
Com discos que se tornaram referências do rap em português e uma presença constante no underground e nos palcos do país, os Dealema ajudaram a afirmar o eixo Porto/Gaia como um dos centros do Hip-Hop em Portugal, mantendo sempre a palavra como a sua principal arma artística.
Nesta entrevista, regressamos à história do colectivo e às ideias que continuam a alimentar a sua música, num diálogo sobre percurso, identidade e aquilo que ainda move os Dealema tantos anos depois.
Ecletismo Musical (EM): Depois de três décadas de percurso, o que é que significa hoje para vocês a palavra Dealema? Ainda é um nome ou tornou-se uma espécie de ideia?
Dealema: Hoje, para nós, o nosso nome ultrapassa o conceito de banda, somos uma irmandade. Começámos no underground, antes da internet, gravamos em cassetes que eram passadas de mão em mão, a mensagem alastrou-se pelas ruas. Hoje, olhamos para a nossa história e a palavra carrega o peso de 30 anos de sacrifício, orgulho e resiliência. Tornou-se uma ideia, uma escola viva de que é possível construir a nossa própria estrada, mantendo sempre o brio e a atitude autêntica que nos define desde 1996.
EM: Quando dizem “Dealema é para os que pensam, aqueles que se importam”, a música transforma-se quase num espaço de consciência. O Rap ainda pode ser um lugar de reflexão num mundo tão rápido? E é essa missão que continua a alimentar a vossa criatividade e a vontade de cuspir barras?
Dealema: Sem dúvida. Vivemos numa era em que tudo é consumido rápido, mas o rap continua a ter o impacto de documentário da nossa história. Continuamos a escrever porque esta missão pulsa nas nossas veias. O nosso som nunca foi descartável, é um espaço de reflexão. Tal como diz o Maze – “Coragem nunca some, o verbo não dorme”. A vontade de despertar mentes com a palavra é o que nos faz rimar com a mesma fome desde o primeiro dia.
EM: Trinta anos depois de terem começado a fazer música juntos, o que mudou mais: o mundo à vossa volta ou a forma como vocês o observam?
Dealema: O mundo mudou imenso desde 1996. A nossa cidade abriu-se ao globo e, naturalmente, tornou-se invicta cosmopolita. Contudo, a nossa identidade portuense, o nosso sotaque e o nosso calão continuam intactos. O que mudou aos nossos olhos foi uma visão agora com maturidade. O nosso olhar continua atento, mas com perspectivas mais adultas. Toda essa transformação inevitável da sociedade significa apenas que temos hoje muito mais matéria prima para construir novas histórias através da nossa música. A vida não pára, e nós também não.
EM: O novo disco “96 ao Infinito” parece olhar ao mesmo tempo para o passado, o presente e o futuro. Foi esse o espírito com que entraram em estúdio?
Dealema: Sim. O espírito do “96 ao Infinito” é uma celebração de todas as fases que vivemos. Gravamos com a memória viva das sessões noturnas no 2º piso, num gravador Fostex de 4 pistas com microfones baratos, mas de olhos postos no presente e nas gerações a quem ajudámos a abrir caminho. Este disco une a crueza do nosso passado ao nosso patamar atual, com projeção para um futuro com nova música, novos projetos. Este disco é a obra que prova que a nossa estrada tem raízes fortes e um caminho sem fim à vista.
EM: O tempo, até pela inevitável maturidade adquirida ao longo dos últimos 30 anos, atravessa muito das vossas letras. Quando o passado regressa ao que querem dizer, ele chega como saudade ou como interrogação?
Dealema: O passado chega sobretudo como uma bússola da nossa identidade, nunca como uma nostalgia paralisante. Olhamos para trás com o respeito de quem sabe o tempo e sacrifício que custou construir o nosso repertório. O tempo funciona nas nossas letras como uma interrogação constante: quem fomos e como chegámos até aqui. Esta retrospetiva é vital para não esquecermos a nossa essência. É um percurso de superação, independência e evolução. Temos muito orgulho naquilo que representamos.
EM: O que significa continuar a procurar verdade numa forma artística que nasceu da rua, mas hoje vive também no digital e num contexto global? Como lidam com O Movimento na era “pós-comercial” e maximização do Hip Hop?
Dealema: Lidar com isso é manter o nosso carisma inabalável. O hip hop massificou-se, a nova geração atinge patamares altos com uma rapidez que nós não tínhamos. Orgulhamo-nos de ter construído essa estrada. Mas para nós, a verdade da nossa arte continua a estar no asfalto, na mensagem e na atitude. O meio hoje pode ser o digital, mas sabemos muito bem estabelecer limites. A era da maximização comercial não molda a nossa música, somos e seremos eternamente fiéis à nossa identidade.
EM: A propósito, como olham hoje para o estado da música feita em Portugal?
Dealema: Vemos uma cena vibrante. Há uma geração tecnicamente incrível com projetos novos, alguns com claras influências nos artistas que vieram antes. Em simultâneo, notamos um interesse muito bonito do público em escavar e documentar a nossa história para entender os pilares do movimento em Portugal. A música nacional respira diversidade. Só esperamos que a velocidade da indústria não ofusque a verdadeira essência da música portuguesa, e que a ética, a sonoridade e a palavra continuem sempre a par da evolução estética e do sucesso.
EM: Se pudessem curar o vosso festival ideal, que artistas fariam parte do cartaz? Estejam eles vivos ou não.
Dealema: O festival ideal seria bem longo e inspirador, talvez com vários dias porque a lista seria bem pesada. Mas juntar nos primeiros 2 dias nomes como Rakim, Nas, Cypress Hill, Mobb Deep, Wu Tang, Gang Starr, The Roots, M.O.P, Onyx, Black Star, Redman e A Tribe Called Quest já seria um bom começo para um evento inesquecível.
EM: Se tivessem de escolher cinco álbuns de sempre ou os que mais vos influenciaram, quais seriam? E porquê?
Dealema:
Estes cinco discos são verdadeiros documentos que ajudaram a moldar a nossa identidade.
“Illmatic” – Nas

Pelo puro liricismo que nos desafiou a escrever melhor.
“Moment of Truth” – Gangstarr
Pelo estilo genuíno, beats do Premier e sabedoria lírica.
“36 Chambers” – Wu-Tang Clan

A grande inspiração da nossa dinâmica de grupo, para nós foi uma revolução sonora vinda de um clâ de super heróis.
“Heavy Mental” – Killah Priest

Pela elevação espiritual que inspirou as nossas letras.
“The Infamous” – Mobb Deep

Pela identidade e atitude com que nos identificamos.
EM: O que é que os próximos meses reservam para os Dealema? Por onde irão andar?
Dealema: Para os próximos meses, reservamos novo vídeo, músicas novas e muita estrada. Podemos revelar já duas datas: em 3 de Junho – Paços de Ferreira e 9 Junho – Amares. Mas iremos estar também em Lisboa e no Porto, em duas datas muito fortes, a revelar brevemente
Foto: ©André Henriques
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