Há artistas que passam décadas a construir uma relação com a música portuguesa sem nunca perderem a capacidade de se reinventar. Inês Santos é uma dessas vozes. Com mais de trinta anos de carreira, depois de um percurso que passou pela televisão, pelo teatro musical, pela ópera e pela representação portuguesa na Eurovisão de 1998, a cantora regressa agora com “Tranças”, o primeiro avanço do seu quarto álbum de estúdio, um projeto dedicado à valorização dos cordofones tradicionais portugueses.
A canção tem letra e música de Fernando Tordo, uma das figuras maiores da música portuguesa, e surge como uma homenagem às raízes, à memória e às mulheres que transportam consigo o património emocional de famílias inteiras, num tema inspirado nas recordações da avó Emília de Inês Santos e nas vivências da Casa do Minho,
O símbolo das tranças torna-se particularmente poderoso porque uma trança é feita de fios independentes que se unem para formar algo maior. Tal como uma família. Cada fio transporta uma história própria. Mas é no entrelaçamento que surge a força.
Ao longo da canção, sente-se uma procura constante por essa ligação entre passado e presente. As mulheres evocadas em “Tranças” representam todas aquelas figuras discretas que carregaram culturas, tradições e ensinamentos através das gerações sem nunca ocuparem verdadeiramente o centro da narrativa.
Musicalmente, o tema reforça essa ideia de encontro. A viola braguesa de Vasco Ribeiro Casais, conhecido pelo projeto Omiri, cruza-se com a delicadeza da bansuri indiana, criando uma ponte sonora entre Portugal e o mundo.
Talvez seja por isso que “Tranças” emociona. Porque nos recorda que somos feitos de histórias que começaram muito antes de nós. De vozes que já não ouvimos, de pessoas que continuam presentes através daquilo que nos deixaram.
Não é apenas uma canção sobre memória, mas sim, sobre a forma como o amor, as histórias e os ensinamentos atravessam gerações.
E sobre a descoberta de que, mesmo quando pensamos caminhar sozinhos, transportamos sempre connosco os fios invisíveis de muitas vidas que ajudaram a construir a nossa.