Três anos depois da estreia no Festival Músicas do Mundo, A Garota Não regressou ao Castelo de Sines com um espetáculo que revelou muito mais do que a evolução de um repertório. Perante um recinto cheio, participativo e disponível para responder a cada provocação, Cátia Mazari Oliveira voltou a demonstrar uma das características que mais tem definido o seu percurso: a coragem de dizer aquilo em que acredita, mesmo quando o contexto poderia “aconselhar” maior prudência.
Quando atuou no FMM em 2023, A Garota Não chegava impulsionada pelo impacto de 2 de Abril, o álbum que a confirmou como uma das vozes fundamentais da canção portuguesa contemporânea. Regressou agora depois de Ferry Gold, um disco mais extenso, fragmentado e aberto ao mundo, construído a partir de textos, notícias, discursos, imagens, batidas e outras matérias recolhidas do presente.
Como já tinha contado no concerto realizado no mês passado, na Marina de Cascais, integrada no Art Explora Festival: disponível AQUI, este regresso ao FMM adquiria um significado particular por acontecer depois da edição de “422”.
Na canção, Cátia escreve sobre os lucros apresentados pela Galp e sobre a distância entre os resultados das grandes empresas e a realidade económica de quem continua a pagar o preço: “A subida é prato do dia / Tanto imposto barriga vazia / E esta raiva que juntos calamos / Faz crescer a mão dos soberanos”.
A Galp é o principal patrocinador do FMM e, talvez, poucos dos presentes se tenham apercebido de que, enquanto o palco era montado, “422” tocava em fundo. O detalhe funcionou como uma espécie de cartão de visita para aquilo que se seguiria: um concerto corajoso, disruptivo e assente numa ideia que atravessa toda a obra de Cátia. A verdade não se compra, e o talento consegue encher festivais mesmo quando aquilo que é cantado poderá não agradar aos “soberanos”.
A inclusão de “422” no alinhamento acabou por confirmar que não haveria qualquer tentativa de contornar o desconforto. Cátia não se limitou a interpretar a música; apresentou-a, contextualizou-a e explicou detalhadamente as razões que estiveram na sua origem, criando um dos momentos de maior intervenção da noite.
O público respondeu com a mesma disponibilidade que manteve durante todo o espetáculo, demonstrando que a canção de protesto não pertence apenas a uma memória distante da música portuguesa. Continua a ter matéria, destinatários e razões suficientes para existir no presente.
Para esta noite especial, Cátia juntou aos seus companheiros habituais: Sérgio Mendes, João Mota e Diogo Arranja, três vozes extraordinárias: Joana Alegre, Orlanda Vasconcelos Guilande e Bárbara Wahnon. A presença das três cantoras acrescentou profundidade, corpo e dimensão às composições, transformando momentos habitualmente mais íntimos em experiências de verdadeira força coletiva.
Mais do que um simples reforço harmónico, as vozes criaram novas texturas e acentuaram a natureza plural de uma obra que, mesmo quando nasce de uma experiência individual, procura quase sempre representar muitas outras pessoas.
Essa construção coletiva permitiu que o concerto atravessasse diferentes territórios sem se transformar numa sucessão dispersa de temas. A intervenção social, a memória familiar, a homenagem a outras vozes e a dimensão poética surgiram como partes da mesma viagem, unidas por uma interpretação que nunca separa completamente a intimidade da política.
Foi, acima de tudo, uma celebração da Liberdade e de esperança por um mundo melhor, um mundo em que o que parece óbvio se transforme em regra e em que o extremo ignorante perca território para o amor, nas suas mais diversas expressões.
As canções de Cátia identificam aquilo que falha, dão nome às estruturas que condicionam a vida comum e devolvem presença a pessoas habitualmente colocadas fora da narrativa, mas recusam ficar aprisionadas pelo desespero. Há nelas uma vontade de transformação e a convicção de que cantar também pode reunir pessoas e preservar a capacidade de sonhar quando a realidade insiste em tornar o futuro mais estreito.
A presença de material de A Vulgar Mulher Extraordinária, (que Cátia anunciou estar a ser gravado) ainda desconhecido por parte significativa do público, foi essencial para ampliar esse universo. Ao partir da vida da mãe para chegar às histórias de várias gerações de mulheres, Cátia aproxima a biografia individual da memória coletiva. As grandes questões políticas deixam de existir apenas nos parlamentos, nas estatísticas ou nos discursos públicos e regressam às cozinhas, às fábricas, às casas, aos trabalhos invisíveis e aos silêncios transmitidos entre gerações.
Também as versões dos artistas que a inspiraram, integradas numa forma reduzida do medley criado para celebrar o 25 de Abril e estreado em Leiria com o Coro das Mulheres da Fábrica: review disponível AQUI, ajudaram a mostrar que a linguagem de Cátia nunca foi construída no isolamento.
Para muitos dos presentes, depois de cantarem “Os Vampiros” de Zeca Afonso ou “Que Força é essa” de Sérgio Godinho, gritar “And now you do what they told ya”, de “Killing in the Name”, dos Rage Against the Machine, terá sido uma inesperada mudança de registo.
Para Cátia, foi sobretudo uma forma de continuar a reconhecer aqueles que também fizeram da música um território de luta e cuja coragem continua a alimentar quem hoje procura novos modos de intervenção.
Depois do concerto, Cátia escreveu que tinha subido ao palco com “a garganta toda arrombada de uma semana frágil”. Essa revelação poderia transformar retroativamente a atuação numa narrativa de sacrifício individual ou de superação física.
No entanto, a própria recusou esse enquadramento através de uma frase que resume muito daquilo que A Garota Não representa: quando se entra no palco do FMM, “não há dor (nem patrocinador) que nos faça cantar baixinho”.
A frase prolonga naturalmente o significado de “422” e reafirma a decisão de permanecer fiel ao que acredita. Depois de um concerto recebido com entusiasmo por um Castelo de Sines cheio, Cátia não procurou suavizar a provocação nem esconder o contexto em que cantara.
Pelo contrário: lembrou que nem as dificuldades físicas nem os interesses que rodeiam um festival serão suficientes para diminuir uma voz quando ela considera que existe alguma coisa que precisa de ser dita.
Se a garganta estava ferida, o concerto encontrou força na comunidade que a rodeava. Ao agradecer a Joana Alegre, Orlanda Guilande e Bárbara Wahnon, Cátia descreveu-as como uma retaguarda cujo lugar deveria estar igualmente ali à frente.
A frase foi mais do que um gesto de generosidade. Revelou a própria arquitetura do espetáculo: as vozes que acompanharam A Garota Não não estavam em palco como decoração ou mero suporte, mas como presenças autónomas que acrescentaram perspetivas, corpos e força a uma música que sempre procurou falar no plural.
O mesmo se aplica a Sérgio Mendes, João Mota e Diogo Arranja, músicos com quem Cátia partilha uma cumplicidade capaz de acompanhar todas as mudanças de intensidade das canções. Entre a contenção e a explosão, a palavra e o ruído, a intimidade e a celebração, a banda permitiu que o espetáculo mantivesse uma enorme unidade, mesmo quando atravessava materiais nascidos em momentos e contextos artísticos diferentes.
Cátia agradeceu igualmente a Carlos Seixas por aquilo a que chamou “este sonho de resistência chamado FMM”. A expressão descreve bem a relação entre a artista e o festival. O FMM continua a ser um lugar onde a diferença não é tratada como ornamento, onde a música é apresentada como possibilidade de encontro e onde projetos afastados das fórmulas mais previsíveis conseguem encontrar um público disponível para escutar.
Talvez a maior conquista do concerto tenha sido precisamente essa: demonstrar que a intervenção não elimina a beleza, que a poesia não enfraquece a mensagem e que a esperança não obriga a ignorar a realidade. A cantiga pode continuar a ser uma arma, mas não apenas de denúncia. Pode ser uma arma de esperança, capaz de transformar a inquietação individual numa experiência coletiva e de lembrar que a crítica ao mundo também pode nascer do amor por aquilo que ele ainda poderá vir a ser.
A Garota Não regressou assim ao FMM com uma garganta fragilizada (algo que não se notou na sua voz), mas acompanhada por uma estrutura humana e musical capaz de transformar essa vulnerabilidade numa força partilhada. Num festival patrocinado por uma empresa diretamente visada numa das suas canções, Cátia escolheu não evitar o confronto, não reduzir a intensidade e não cantar mais baixo.
Porque há momentos em que cantar baixinho seria apenas outra forma de silêncio. E A Garota Não continua a saber que certas canções existem precisamente para o interromper.
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