Há 7 anos, Sara Correia dizia ao Ecletismo Musical em entrevista [Recordar Aqui] que ” Gosto muito que se respeite a tradição, mas também entendo que há toda uma geração diferente e é bom haver criatividade.”
Hoje, lança “Tempestade”, o seu novo álbum de estúdio, exclusivamente escrito por mulheres e com uma sonoridade que parte da tradição, mas que reforça a contemporaneidade de uma das mais extraordinárias vozes em Portugal.
O disco chega numa semana decisiva e de consagração na carreira da fadista, culminando no concerto já esgotado desde novembro passado na MEO Arena, em Lisboa, a 7 de março.
“Canto” é o single que acompanha o lançamento do álbum. Escrito por Carolina Deslandes com a ajuda na composição de Rodrigo Correia, o tema é editado com vídeo oficial e assume-se como uma das declarações centrais do álbum: uma canção que dá voz às mulheres que sofrem em silêncio, abordando diferentes formas de violência emocional e afirmando resistência e identidade.
Este é um trabalho concetual e assumidamente feminino: as 11 canções são integralmente escritas por mulheres. Entre as autoras reunidas neste álbum encontram-se a já citada Carolina Deslandes, Mila Dores, A garota não, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Márcia, Mafalda Arnauth, Beatriz Pessoa e Aldina Duarte.
Por entre um alinhamento fortíssimo e em que todas as canções são impactantes e profundamente profundas, destaque especial para “As Mãos do Meu Carinho” escrita por Mila Dores, “Continuo à Tua Espera” igualmente escrita por Carolina Deslandes, o “Marinheiro” escrita por Márcia e “Fado Sara” escrita pela Fadista Aldina Duarte.
O álbum conta ainda com um dueto surpreendente entre Sara Correia e A Garota Não, “Roupa ao Sol” escrita por Cátia Mazari Oliveira (a garota não), onde a metáfora de por a “roupa ao sol” parece tornar-se equivalente a pôr a nu aquilo que nos constitui: afectos, fragilidades, feridas abertas e também a força que advém de aceitar cada um desses elementos. Ao colocar a “roupa”, aquilo que nos cobre e protege ao sol, a canção transforma um gesto doméstico em ritual de claridade emocional, onde a luz representa verdade, visibilidade e, simultaneamente, calor e cura interior.
A ideia de colocar versos “ao sol” sugere um acto de honestidade, um desejo de que o que estava oculto se torne manifesto e que, sobretudo, ainda existe esperança, ainda há tempo.
A participação de A Garota Não, não apenas como autora mas como presença vocal e conceptual na faixa, enriquece ainda mais a experiência, transformando “Roupa Ao Sol” num retrato dual: é tanto o olhar da intérprete como o do poeta sobre o que significa expor o íntimo ao olhar do mundo.
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