O Ecletismo Musical tem vindo a destacar Annahstasia há algum tempo. Quando a destacámos como um dos nomes destinados a crescer, na sessão com o coletivo The Crescent, escrevemos que chegaria o momento em que aquele talento ocuparia palcos muito maiores. Meses depois, na review do concerto no Hoxton Hall, em Londres (AQUI), ficou a certeza de que a sua força tranquila sobreviveria à passagem de uma sala intimista para a escala de um festival. No Primavera Sound Porto, essa previsão confirmou-se.
Annahstasia subiu ao Palco ZYN ao final da tarde de 12 de junho, durante o segundo dia do festival, acompanhada por três instrumentistas no contrabaixo, violoncelo e guitarra. Ainda o Parque da Cidade começava a receber uma parte significativa do público e já uma assistência numerosa se concentrava diante do palco, surpreendendo a própria artista, que agradeceu a presença de tanta gente àquela hora.
O contexto era bastante diferente do Hoxton Hall. Em Londres, as madeiras de um antigo teatro, a proximidade e o silêncio quase religioso da sala protegiam cada detalhe das canções. No Porto, havia luz, circulação entre palcos e o ruído inevitável de um grande festival ao ar livre. Annahstasia não tentou combater essas condições através do volume, de uma produção mais pesada ou de gestos concebidos para conquistar rapidamente quem passava. Confiou na mesma linguagem que o EM já encontrara nas suas sessões e concertos anteriores: presença, clareza e uma interpretação que transforma contenção em intensidade.
O repertório centrou-se naturalmente em Tether, passando por temas como “Garden”, “Be Kind”, “Take Care of Me”, “Fight”, “Overflow”, “Villain”, “Sunday” e “Believer”. O contrabaixo sustentava as canções sem as tornar pesadas, o violoncelo ampliava a tensão emocional e a segunda guitarra criava pequenos movimentos em redor da voz, deixando sempre espaço suficiente para que cada frase respirasse.
É essa utilização do tempo que continua a distinguir Annahstasia. A profundidade do seu timbre causa um impacto imediato, mas a verdadeira força está na forma como atrasa uma palavra, interrompe uma frase ou deixa uma nota transformar-se antes de avançar.
Quando o Ecletismo Musical escreveu sobre a sua sessão com The Crescent, antecipou que aquelas imagens seriam revisitadas no futuro como testemunho de uma artista ainda a caminho de palcos maiores. O Primavera Sound Porto foi um desses passos. Annahstasia já não é apenas uma promessa descoberta em sessões intimistas ou pequenas salas londrinas. É uma artista capaz de manter intacta a sua identidade perante um público de festival e de confirmar que a intensidade não depende da quantidade de ruído que conseguimos produzir.
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