Existem canções que tentam explicar a morte. “Forget About Dying”, de Gordi (que o EM já tinha destacado em 2020) faz algo muito mais difícil: tenta recordar-nos da vida. A australiana Sophie Payten ocupa um lugar raro na música contemporânea. Enquanto construía uma carreira como compositora e intérprete, trabalhava simultaneamente como médica. Durante a pandemia regressou aos hospitais, confrontando-se diariamente com a doença e a perda.
Em “Forget About Dying”, não encontramos uma reflexão sobre o fim. Encontramos uma reflexão sobre o tempo. Ao longo da vida, somos educados para viver como se tudo estivesse à nossa espera, adiamos conversas importantes, adiamos viagens, adiamos mudanças, adiamos sonhos.
Convencemo-nos de que haverá sempre uma ocasião mais adequada, um momento mais conveniente, uma versão futura de nós próprios capaz de fazer aquilo que a versão presente continua a evitar.
Mas a vida possui uma característica profundamente desconfortável. Não nos informa sobre quanto tempo resta. Talvez seja essa a verdade silenciosa que atravessa toda a canção. Não a inevitabilidade da morte, mas a imprevisibilidade da vida.
Existe ainda uma outra armadilha.
Passamos anos a acreditar que estamos apenas a ser prudentes. Que estamos a proteger aqueles que amamos. Que estamos a esperar pelo momento certo, pela certeza necessária, pela circunstância ideal. Convencemo-nos de que adiar uma decisão é diferente de a tomar.
E, por vezes, só depois percebemos que aquilo que chamávamos cautela continha também uma parte de medo. Que aquilo que julgávamos ser responsabilidade escondia a dificuldade de aceitar as consequências daquilo que já sabíamos. Que algumas das oportunidades mais importantes das nossas vidas não são colocadas em risco pela ausência de amor, mas pela dificuldade de decidir o que fazer com ele.
E, por vezes, só depois compreendemos que a clareza que procurávamos numa decisão não surgiu depois de comunicar que a tomámos. Pelo contrário, é essa própria decisão que nos obriga a questionar aquilo que julgávamos saber.
Talvez algumas das decisões mais importantes das nossas vidas não sejam aquelas que nos trazem respostas, mas aquelas que nos obrigam a revisitar perguntas que acreditávamos já ter resolvido.
Existe uma diferença subtil entre consciência e medo. Grande parte da nossa ansiedade nasce precisamente dessa tentativa impossível de controlar aquilo que não pode ser controlado. Queremos garantias, queremos saber que aqueles que amamos estarão presentes amanhã. Queremos acreditar que ainda teremos tempo para dizer aquilo que ficou por dizer.
Mas nenhuma dessas promessas nos é dada e talvez essa verdade seja simples. Passamos demasiado tempo a preparar-nos para viver, a organizar o futuro e à espera da circunstância perfeita. Entretanto, os dias continuam a acontecer.
Esta parece ser uma canção sobre presença. Sobre a coragem de abandonar, ainda que por momentos, a necessidade de controlar o futuro. Sobre a capacidade de regressar ao presente e reconhecer a extraordinária improbabilidade de tudo aquilo que já existe, com a incerteza no que não se viveu.
Porque talvez a questão mais importante nunca tenha sido quanto tempo temos. Talvez seja o que fazemos com o tempo que nos foi dado.
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