Caminho é Quanto Fica da Viagem, o novo trabalho de Marco Oliveira em colaboração com o guitarrista José Peixoto, chega-nos para se colocar, necessariamente, como um dos álbuns que fará parte de várias listas de melhores do ano.
Neste quarto álbum do fadista lisboeta, a música surge como resultado de um diálogo criativo entre duas sensibilidades: a voz e escrita de Marco Oliveira e o universo instrumental e composicional de José Peixoto, músico com uma longa carreira e presença marcante em projetos como Madredeus, El Fad ou Lisboa String Trio. É também Peixoto quem assume a produção e os arranjos do disco, moldando a sua atmosfera sonora.
O repertório inclui poemas de alguns dos grandes autores portugueses do século XX – Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Sebastião da Gama ou Miguel Torga – integrados numa narrativa musical que aproxima o fado da poesia e da reflexão.
Canções como “Canção do Medo” revelam bem esse equilíbrio entre tradição e interioridade. A voz de Marco Oliveira mantém a intensidade emocional característica do Fado, mas nunca se entrega ao excesso dramático. Pelo contrário, a interpretação é contida, quase meditativa, deixando espaço para que as palavras e as guitarras respirem.
É aqui que a contribuição de José Peixoto se torna decisiva. Os arranjos são discretos mas profundamente expressivos, criando uma paisagem sonora que respeita a matriz do fado ao mesmo tempo que a abre a outras possibilidades musicais.
No final, Caminho é Quanto Fica da Viagem não se apresenta apenas como mais um disco dentro do universo do Fado contemporâneo. É antes um trabalho de encontro entre música e poesia, onde é preciso tempo, dedicação e vontade de parar e escutar.
E, tal como o título do álbum (frase retirada do Fado das Nuvens, uma canção inédita de José Mário Branco) parece sugerir, no fundo, o mais importante não é apenas a viagem que fazemos, mas aquilo que permanece dentro de nós depois de regressarmos.
Foto: Vitorino Coragem
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