“A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe” é o mais recente álbum de Ricardo Ribeiro, composto por 11 temas incluindo “Má Sorte”, “Amanhã”, “51” ou “Maré”, este último com participação de Ana Moura (e já destacado no EM).
Ricardo Ribeiro sempre foi um intérprete que parece cantar como se estivesse a atravessar alguma coisa. Nunca foi apenas técnica, nem apenas tradição. Há nele uma inquietação constante, uma espécie de desassossego que não cabe dentro das formas mais fechadas do Fado.
“A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe” assume desde o início que a identidade é fragmentada, que aquilo que sentimos raramente encontra forma suficiente para existir dentro de um género, de uma linguagem ou até de um corpo. O próprio disco nasce dessa urgência interior, de algo que precisava de sair sem necessariamente se explicar
Musicalmente, o Fado continua a ser o ponto de partida, está lá na guitarra portuguesa, na respiração, na forma como a voz ocupa o espaço, mas nunca por aí se esgota. Há momentos onde a música se aproxima de outras geografias, outras tradições, quase como se o Fado fosse apenas uma raiz a partir da qual tudo o resto se expande. Não há aqui uma tentativa de modernizar o Fado de forma óbvia.
Este disco vive muito da forma como se expande para fora de si. Há temas inteiramente seus: “Amanhã”, “Mantra”, “Morena”, onde a escrita funciona quase como extensão direta da voz. Mas depois há outros pontos de tensão: “51”, que abre o disco com assinatura de A Garota Não, introduz logo uma linguagem mais contemporânea; “Golpe a Golpe” cruza letra do próprio Ricardo com música de Amélia Muge; “Oração” nasce da escrita de Teresa Núncio com composição de Manuel Oliveira.
E é aqui que o disco ganha outra dimensão. Porque não estamos perante um álbum fechado na identidade de um autor, mas sim perante um espaço onde várias escritas coexistem: Manuel Alegre, Paulo César Pinheiro, Manuel Alcântara, nomes que trazem consigo outras tradições, outras histórias, outras formas de dizer o mesmo sentimento.
A produção está maioritariamente nas mãos de Bernardo Saldanha e Manuel Oliveira, com exceções como “Má Sorte”, “Maré” e “Amanhã”, produzidas por Agir e pelo próprio Ricardo Ribeiro.
Os músicos que acompanham o disco: Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Manuel Oliveira no piano, Rodrigo Correia no contrabaixo, Alexandre Frazão na bateria não estão ali para ornamentar. Estão para sustentar com a mestria de sempre, permitindo que as interpretações de Ricardo Ribeiro e as palavras percorram compassadamente o seu caminho permitindo-lhes terem o seu próprio tempo.
Um trabalho para ser ouvido com o tempo que merece.
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