Há artistas que mudam com o tempo. E depois há aqueles em que tudo muda à sua volta, menos o essencial. Desde que o Ecletismo Musical viu A Garota Não, em Torres Vedras, ainda em 2022, já havia uma verdade impossível de ignorar: uma urgência que não vinha da música, mas daquilo que precisava de ser dito. No sábado, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, essa urgência continua intacta, mesmo que tudo à volta tenha crescido.
O concerto começou no formato habitual, com Cátia Mazari Oliveira acompanhada pela sua banda, Sérgio Miendes, Diogo Arranja e João Mota. “Canção Sem Fim” abre o caminho sem pressa, mas com peso. Seguem-se “Este País Não É Para Mães”, “A Sede do Xega”, “Fronteiras Invisíveis” e “Urgentemente”. Cinco canções onde cada verso assenta sozinho e se sustenta por si.
Há uma linha que atravessa tudo e que, aqui, se sente sem filtro. Nada é dito ao acaso.
“A Sede do Xega” não precisa de explicação. Precisa apenas de ser dita em voz alta, no contexto certo, com o público certo. E esse contexto existe, na forma como a sala escuta, responde e reconhece. Já não é provocação. É afirmação partilhada.
“Fronteiras invisíveis” ecoa não como verso, mas como pergunta aberta. Quantas fronteiras carregamos sem as nomear? Quantas continuam dentro de nós, mesmo quando pensamos que já as ultrapassámos?
“Urgentemente” surge como necessidade. Não como pressa, mas como consciência de que há coisas que já não podem esperar.
E é depois deste primeiro bloco que tudo se expande.
A entrada das cerca de 60 mulheres do Coro das Mulheres da Fábrica transforma a sala. O concerto deixa de ser apenas canção e passa a ser corpo coletivo. O que antes era palavra individual ganha dimensão partilhada, memória e intervenção colectiva.
O Coro das Mulheres da Fábrica, que faz um trabalho extraordinário na recolha e reinvenção do cancioneiro tradicional e da oralidade, deixa de ser presença e passa a ser força.
Em “Que Mulher É Essa”, cruzada com versos da tradição oral, “que tristeza é ser mulher, se é bonita tem má fama, se é feia ninguém a quer”, tudo ganha outro peso. Não é apenas canção. É herança viva. E transforma-se num dos momentos mais fortes da noite.
“Dilúvio” não surge como rutura, mas como acumulação, como se tudo o que foi sendo dito ao longo do concerto, encontrasse ali um ponto de descarga emocional, sem nunca perder o controlo.
Depois “Ferry Gold” chega-nos para nos lembrar que nem a natureza permanece pública.
Mas ainda havia espaço para mais, a surpresa da noite: um medley da A Garota Não e do Coro das Mulheres da Fábrica com direito a Cátia a cantar desde System of a Down, “Power to the people”, Rage Against the Machine ou “Vampiros”, “Depois do Adeus”, “Que força é essa” e, para fechar, um Teatro todo de pé a cantar em uníssono a icónica: “Grandola, Vila Morena”.
Desde Torres Vedras até aqui, muita coisa mudou. Os palcos cresceram, o público tornou-se fiel, as salas enchem-se com uma certeza que já não precisa de validação. Mas Cátia continua exatamente onde sempre esteve. A sua verdade não mudou. A sua integridade não foi negociada. E a fama não a transformou, apenas lhe deu mais espaço.
Mais espaço para dizer. Mais espaço para incomodar. Mais espaço para intervir. E talvez seja isso que este concerto revela com mais clareza. Não o crescimento. Mas a amplificação.
No fundo, ver A Garota Não hoje é perceber que há artistas que não mudam para crescer. Crescem para poder ser ainda mais aquilo que sempre foram.
E isso muda tudo.
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