A atriz portuguesa Helena Caldeira, conhecida do grande público pelo seu trabalho no teatro, cinema e pela série Rabo de Peixe, apresenta em “Vizinhas” o primeiro capítulo da sua incursão na música. O tema funciona como porta de entrada para o álbum de estreia ABALAR, a editar este ano, e revela uma dimensão autoral onde a artista assume voz, letra e composição, expandindo a sua linguagem artística para além do ecrã e do palco.
Mais do que um simples single de estreia, Vizinhas constrói-se como uma pequena narrativa. A canção mergulha no universo doméstico da mulher camponesa durante o período da ditadura, um espaço frequentemente marcado pela ausência masculina, pela falta de direitos e pela impossibilidade de expressão pessoal. Nesse cenário, a música imagina duas mulheres que rompem as suas amarras e iniciam um caminho de libertação emocional e física.
Nas palavras da própria:“Hoje quero celebrar todas as Vizinhas do passado que encontraram umas nas outras a força e o motor das suas vidas na comunhão feminina, quando as suas vidas eram limitadas ao trabalho doméstico e de cuidadoras, quando a suas vozes eram caladas e o seu prazer silenciado à mercê das vontades de um dono, em casa, no trabalho e no governo. Era na vizinhança que essas mulheres procuravam o seu lugar de cuidado e pertença. E foram dessas mulheres que as Vizinhas do presente nasceram, se emanciparam das amarras do tempo e abriram a goela para afirmar as suas vozes políticas ! Eu sou uma Vizinha do presente, grata pelas Vizinhas do passado e do futuro. Que juntas possamos dar a mão e continuar a romper com todas as amarras que nos foram impostas, a correr pelas ruas, livres, de bocas e corações abertos, e que os vizinhos também nos dêem a mão, que corram connosco, juntos e que nunca nos esqueçamos que somos todos vizinhança ! E que ser mulher é ser esperança!”
Musicalmente, com uma roupagem moderna, há ecos da canção popular portuguesa e uma forte ligação à paisagem cultural do Alentejo, que surge quase como personagem silenciosa da história. A interpretação de Helena Caldeira privilegia a contenção e a narrativa, deixando que a força da letra conduza a escuta.
O lançamento é acompanhado por uma curta-metragem realizada pela própria artista, onde participa também a atriz Isabela Valadeiro. O vídeo amplia a dimensão simbólica da canção, explorando a imagem feminina e a vastidão da paisagem alentejana como metáfora de memória, resistência e desejo de liberdade.
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