Shye, jovem de Singapura, escreve como quem sussurra algo que não quer que desapareça, e “Smoke” instala-se exatamente nesse espaço, entre o que ainda é presença e aquilo que já começou a dissipar-se, quase como se a canção existisse no momento preciso em que uma memória deixa de ser sólida para se tornar difusa.
Há uma sensação constante de instabilidade na música, não no sentido de ruptura, mas de deslocamento, como se tudo estivesse ligeiramente fora do sítio, e é precisamente isso que a torna tão íntima, essa incapacidade de fixar o que se sente, essa ideia de que tudo o que importa acaba inevitavelmente por escapar, deixando apenas vestígios.
Dentro do percurso de Shye, que desde cedo construiu uma linguagem muito própria entre indie, electrónica e confissão emocional , esta faixa não tenta agarrar nada nem sequer preservar, limita-se a mostrar como tudo o que sentimos acaba, inevitavelmente por se dissipar quando o peso de permanecer pode ser mais pesado do que o de deixar escapar.
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