A Part of Us, editado a 25 de setembro, é o novo álbum dos TWO LANES, projeto dos irmãos Leo e Rafa Schmid. Ao longo de dez temas e pouco mais de 33 minutos, o duo berlinense aproxima piano, sintetizadores analógicos e produção eletrónica, contando com as participações de Robot Koch, Foam and Sand, Malte Marten, Aaron Ahrends, SOHN e Kaitlyn Aurelia Smith.
O título não deve ser entendido apenas como uma referência ao vínculo familiar entre os dois músicos. A Part of Us parece partir da ideia de que cada composição transporta uma parcela de quem a criou, mas também das pessoas que passaram pelo processo, das memórias que permaneceram e das relações que transformaram a música pelo caminho. É um disco sobre aquilo que se partilha sem necessariamente se explicar, construído num território onde a contenção diz mais do que qualquer gesto grandioso.
“Converging Lines”, com Robot Koch e Foam and Sand, abre o álbum como se várias trajetórias se aproximassem lentamente até encontrarem um ponto comum. O piano de Leo Schmid não assume imediatamente o centro, surge rodeado por ruídos e movimentos eletrónicos quase impercetíveis, criando um espaço que se vai definindo à medida que a música avança.
Em “Everything That Remains” existe uma melancolia evidente, mas não há dramatização excessiva. O tema parece interessado no que sobra depois da mudança, não enquanto ruína, mas como matéria a partir da qual ainda é possível continuar.
A presença de Malte Marten em “Inner Motion” introduz uma cor diferente através do handpan. O instrumento poderia facilmente empurrar a composição para um ambiente artificialmente contemplativo, mas os TWO LANES evitam esse caminho.
“Seen It All”, com Aaron Ahrends, aproxima o álbum da canção sem abandonar o seu carácter atmosférico. Em “Always”, o duo regressa ao formato instrumental e permite que o tempo se dilate. Com mais de cinco minutos, é a faixa mais longa do disco e uma das poucas em que a repetição recebe espaço suficiente para revelar pequenas alterações de intensidade, timbre e respiração.
O momento mais imediato surge em “Shaped with Two Hands”, com SOHN. A voz de Christopher Taylor transporta uma vulnerabilidade reconhecível, mas a colaboração não soa como uma tentativa de fabricar um single exterior ao resto do álbum. Pelo contrário, prolonga a preocupação de A Part of Us com aquilo que nos forma através do contacto com os outros.
“August” funciona como uma breve passagem, quase uma recordação que desaparece antes de se tornar inteiramente clara. A sua curta duração prepara “By Chance”, colaboração com Kaitlyn Aurelia Smith. A compositora norte-americana, conhecida pela forma orgânica como trabalha sintetizadores modulares, encontra nos TWO LANES parceiros particularmente compatíveis. Os sons eletrónicos parecem respirar, expandir-se e contrair-se, enquanto o piano impede que a composição se perca numa abstração puramente técnica.
“Silent Rebellion” dá ao álbum uma tensão que até então permanecia quase sempre escondida. Não se trata de uma rutura violenta, mas de uma inquietação que cresce debaixo da superfície.
“End of A Cycle” encerra o disco sem procurar uma conclusão definitiva. O piano regressa ao primeiro plano, mas leva consigo as marcas das colaborações e das texturas anteriores. O ciclo termina, embora nada pareça verdadeiramente resolvido. A sensação é mais próxima da aceitação do que da resposta, como se fechar uma etapa significasse reconhecer aquilo que permanece connosco.
A maior qualidade de A Part of Us encontra-se na recusa da exuberância. Numa eletrónica frequentemente construída para produzir impacto imediato, os TWO LANES continuam interessados na aproximação lenta, nos detalhes e no espaço existente entre as notas.
O duo apresenta o álbum em Lisboa a 10 de outubro, na Sala 2 do Lisboa Ao Vivo num concerto a não perder.
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