Há discos que não se limitam a preencher espaço no catálogo de um artista, mas que ficarão inevitavelmente na sua história. Inverbo, o novo álbum de Pedro Abrunhosa & Comité Caviar, lançado a 16 de janeiro de 2026, é um desses momentos: uma obra que, cinco anos depois do último trabalho de estúdio, se apresenta com um manifesto sobre a palavra, a poesia e a forma como a canção encontra sentido na simplicidade contida e na profundidade do silêncio.
Ao longo de 11 canções, Abrunhosa não procura dominar territórios já conhecidos, mas antes olhar para o “avesso das canções”. Cada faixa parece construída como um poema cuja musicalidade decorre tanto do ritmo das palavras quanto da melodia que lhe dá corpo.
A abertura com “Leva-me P’ra Casa” coloca o ouvinte num registo de afeição e anseio. É uma porta que se abre para uma casa sonora onde as palavras são as chaves. A seguir, “Vem Abrir a Porta à Noite” conduz essa mesma urgência para um território mais introspectivo, a noite como espaço de revelação e de confronto com as próprias sombras.
Ao longo do disco, histórias de rendição e ausência emergem como eixos temáticos. “Devias Vir Salvar-me” e “É Sempre Escuro Antes de Amanhecer” são dois exemplos de canções que funcionam como diálogos interiores: pedidos, expectativas e dúvidas que se entrelaçam.
Em temas como “Glória aos Vencidos por Amor” or “Morri Mil Vezes no Teu Peito”, sente-se uma proximidade rara, como se o cantor partilhasse confidências em vez de, apenas, construções melódicas.
“Não Te Ausentes de Mim”, tema já conhecido, aqui integrado no contexto do álbum, funciona como um nó de afecto que dá sentido às outras faixas é uma lembrança de presença em tempos de incerteza, um pedido que ressoa e se repete, obrigando o ouvinte a prestar atenção ao que fica por dizer.
Outros títulos, como “Oxalá o Meu Vestido Ainda Se Lembre de Mim” or “Esta Saudade Não Dorme”, confirmam a capacidade de Abrunhosa para escrever em territórios onde a linguagem poética e a música em si se desafiam mutuamente, dando lugar a canções que são mais do que melodias: são observações profundas sobre a memória, o tempo e a ausência.
Este é um álbum para ouvir com cuidado e, com o tempo necessário para beber as palavras, permitindo-se a entrar no universo de um dos melhores escritores de canções da música portuguesa.
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