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[Entrevista] Surma

[Entrevista] Surma

Fiquem a conhecer melhor um dos mais proeminentes nomes da música feita em Portugal: Surma. Dona de uma sonoridade eclética e experimental e com potencial global, Débora Umbelino será uma artista que irá necessariamente crescer exponencialmente nos próximos tempos, e que, tal como alguns outros nomes portugueses irá fazer muito provavelmente uma carreira internacional de enorme sucesso. Este ano, dará um concerto no Palco Coreto do NOS Alive. Existe uma elevada probabilidade de voltar nos próximos anos e a um palco maior. Talento não falta e, pela forma como esta jovem respondeu às perguntas do Ecletismo Musical, parece ter o que é preciso para triunfar.

EM:Olá Débora. No teu universo juvenil existiam caixinhas de música com bailarinas a rodar? Consegues reconhecer essa imagem na tua música?

Surma: Por acaso não, antes pelo contrário, nunca fui aquele ideia de criança que brincava com bonecas ou que criava todo um mundo mágico na sua cabeça! Preferia ir andar de bicicleta e brincar com os animais lá de casa, ou até mesmo a ajudar a minha Avó no campo! Sempre fui a típica criança que gosta de pôr as mãos na massa e nunca estar quieta, aborrecia-me estar em casa a brincar com bonecos! Talvez reconheça isso agora na música que faço, pelos ambientes e pela atmosfera que pretendo criar, até uso uma como introdução dos concertos mas acho que tem mais a ver com o ideal de atmosfera que pretendo criar neste mesmo momento, por estranho que pareça, não foi a minha infância que me influenciou por seguir estes caminhos.

EM: Quase em jeito de provocação, tendo em conta o nível de experimentação no teu processo criativo (com ausência de letras, com sobreposição de layers sonoros, com constantes momentos de improvisação, transformando cada concerto num momento único), podemos dizer que continuas a dar concertos de Jazz?

Surma: Hmm acho que não me considero uma artista Jazz, apesar de improvisar imenso ao vivo e apesar de ter tido uma escola muito intensiva de Jazz e de ter muitas influências vindas do mesmo! Fui ensinada nesse meio, o meu Pai sempre ouviu muito Jazz e Country dos anos 50, acho que isso me influenciou bastante para a “escola” musical que tenho hoje em dia, vou sempre buscar uma outra coisa jazzística mas não me considero, de todo, uma artista Jazz.

EM: O teu próprio dialecto tem dicionário ou é apenas emoção?

Surma: Posso dizer que tem os dois…com este álbum quis criar uma linguagem própria e um Mundo próprio em que as pessoas interpretassem cada som e cada música de um modo muito pessoal para cada uma delas! Não senti que tivesse que escrever letras só porque sim e quis arriscar nesse mesmo aspecto e explorar o campo da fonética e cada som que fazemos com a nossa boca, é um processo muito livre e muito engraçado de se fazer! Nunca me considerei uma singer/songwriter nem quero ser vista assim, o meu principal objectivo é criar uma ligação muito única com as pessoas, quer seja com o instrumental, quer seja com a melodia presente em cada música!

EM: Sendo o teu universo sonoro e visual muito preparado para ser de consumo global, ainda que obviamente num nicho de mercado, a carreira internacional sempre foi um objetivo ou tem vindo a ser algo que tem acontecido por acaso?

Surma: A música no geral nunca foi levada por mim muito a sério! Sempre estive muito ligada e muito presente a este Mundo, mas levava as coisas muito tranquila e muito na desportiva. Sempre tive a Música em segundo lugar na altura em que estudava! Assim que comecei Surma, aconteceu tudo muito rapidamente e costumo dizer que ando num sonho constante como tudo aquilo que tem acontecido, lancei o projecto sem pensar muito no que viria e tem-me acontecido coisas espectaculares e que nem nos meus sonhos pensei ser possível tudo isto se estar a concretizar.

Passado uns meses de ter lançado Surma pensei para mim mesma “ok, vou fazer disto uma coisa mais séria e aplicar-me a 300% neste projecto” depois de tudo isto e de ter dado imensos concertos nos primeiros 6 meses, o Hugo (Omnichord Records), que já conheço há uns 9 anos e que me acompanha desde muito pequena, falou comigo para entrar na editora e começarmos a trabalhar juntos!

Fiquei felicíssima e começou ainda mais uma aventura incrível! O Hugo começou a apostar na minha Música lá fora e tem corrido tudo tão mas tão bem que não temos palavras para descrever o que tem acontecido nestes últimos anos! Mas foi tudo acontecendo por acaso…temos trabalhado muito arduamente para chegar a todos os cantinhos e tem acabado por correr bastante bem, temos tido imensa sorte com as pessoas que nos rodeiam. Têm sido espectaculares. Agora sim, posso dizer que internacionalizar o máximo possível a minha Música tem sido dos nossos maiores objectivos.

EM: Ocorreu-nos agora esta ideia: Deverás conhecer o trabalho da Tash Sultana e do Noiserv. Achas que seria interessante fazer uma colaboração com os dois, juntando as roots de rua da Tash ao rigor matemático na utilização dos samples do David e misturá-lo com o teu dialeto e formação jazzística?

Surma: Wow, isso seria uma junção incrível! Quem sabe eheh nunca digas nunca! Mas acho que seria uma equação bastante bonita de se fazer!

EM: Achas que a eletrónica em português não resulta? Tens alguma coisa em português que ainda ninguém tenha ouvido?

Surma: Acho que a electrónica em Português resulta e acho que tem resultado bastante bem! Temos crescido muito mas mesmo muito nestes últimos anos, não só na músicas mas em todos os níveis! Um exemplo de que a Electrónica em Português se recomenda e está de muito boa Saúde temos os Grandes Ermo, que para mim são uns génios e das melhores coisas que temos em Portugal, para não falar de muitas mais bandas que são incrivelmente boas.

Twisted Freak, para mim será sempre das minhas maiores influências portuguesas no que toca a electrónica! Não percebo como é que não é mais reconhecido cá, tão bem feito que só ouvindo é que se percebe aquilo que estou a dizer. É incrível!

EM: A propósito, qual consideras ser o «estado d’arte» da música feita em Portugal?

Surma: Acho que estamos num caminho muito bom, mesmo! As pessoas têm-se mostrado interessadas e abertas a coisas novas fora da caixa. Têm apoiado muito mais os artistas nacionais e tenho notado isso de ano para ano! O que nos falta mesmo é mais apoio do Estado para podermos fazer ainda mais e melhor e internacionalizar todo um nicho de música Nacional que se tem mostrado tão forte ou ainda mais dos artistas internacionais e isso sim, é o que nos falta para termos mais flexibilidade para mostrar o que tão bom se faz cá dentro.


EM: Que nomes colocavas no teu “Festival Ideal”? A Bjork faria parte ou a influência que parece existir na tua música é só coincidência? (Vivos ou não).

Surma: Não é coincidência, de todo. A Bjork sempre foi das minhas maiores Professoras e sou uma admiradora incrível do seu trabalho, não só a Bjork mas da Música que se faz na Islândia no geral.

Hmm no meu festival ideal colocaria Bjork (claro está), St. Vincent (a minha deusa para todo o sempre), Hank Williams, Leonore Boulanger, Nanome, Grouper, Charles Mingus, Deradoorian e Stavroz. São dos meus artistas e bandas preferidos.

EM: Se tivesses que identificar os 5 melhores álbuns de sempre, qual era a tua escolha? E porquê?

Pergunta difícil esta…

St. Vincent – Ratsliveonnoevilstar

Foi este álbum que me fez começar a aprender guitarra e a explorar todo o mundo dos Loops.

Hank Williams – Moanin’ The Blues

Influência muito grande para mim desde bebé! Cresci a ouvir Hank e desde então costumo dizer que é o meu Avô adoptado.

Deradoorian – The Expanding Flower Planet

Experimentalismo ao mais alto nível, apaixonei-me por este álbum logo à primeira audição.

Grouper – Ruins

Letras e melodias apaixonantes, a primeira vez que ouvi este álbum chorei do início ao fim. Incrível.

Stravinsky – Das Berliner Requiem

Génio, sábio, prodígio…só o que tenho a dizer deste Grande Senhor.

EM: Quais são os teus planos para os próximos meses? Por onde irás andar?

Surma: Tocar e compôr muito…vou andar a tocar imenso por todo o País e vou ter alguns concertos lá fora também. Os próximos vão ser no Alive, Santarém e Alemanha. E de resto só o futuro nos dirá (eheh)

Muito obrigado Surma e muito sucesso! 🙂

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