Passamos anos a construir objetivos, carreiras, relações, projetos e sonhos. Aprendemos a medir o nosso valor através daquilo que produzimos, conquistamos ou alcançamos. E, sem nos apercebermos, acabamos muitas vezes por transformar a própria vida numa sucessão de metas. Como se a felicidade estivesse sempre alguns passos à frente, escondida atrás da próxima conquista.
É impossível não pensar nisso ao ver o set de BUNT. no Coachella.
Nos últimos anos, o produtor alemão, num género muitas vezes discutível sobre o conceito do que é fazer música, tornou-se uma das histórias mais improváveis da música eletrónica. Longe dos circuitos tradicionais da indústria, construiu uma comunidade global através das redes sociais, de atuações espontâneas e de uma abordagem profundamente humana à música de dança. Em vez de se apresentar como uma estrela distante, BUNT. parece apresentar-se como alguém que continua genuinamente surpreendido por estar ali. E talvez seja precisamente essa autenticidade que explica a ligação tão forte que conseguiu criar com milhares de pessoas em todo o mundo.
O seu concerto no Coachella não foi apenas uma celebração do percurso que o trouxe até um dos festivais mais importantes do planeta. E talvez seja exatamente por isso que alguns momentos se tornam tão especiais. Porque a capacidade de, durante alguns minutos, deixarmos de pensar no passado e no futuro, deixarmos de carregar o peso invisível das responsabilidades, das expectativas e das preocupações que normalmente transportamos, é, provavelmente, a maior que se pode ter.
Ao ver milhares de pessoas a dançar durante o set de BUNT., parecia existir, durante aquele set, uma espécie de acordo silencioso entre todos os que ali estavam. Durante aquele tempo, não importavam os emails por responder, as atividades por realizar, os problemas por resolver, as decisões difíceis ou as dúvidas sobre o futuro. Existia apenas o momento, a experiência partilhada, a catarse coletiva de simplesmente aproveitar o privilégio e, viver.
Talvez seja essa uma das funções mais importantes da arte. Não escapar à realidade. Mas recordar-nos que a realidade também é feita destes instantes. De momentos que não mudam o mundo, mas mudam a forma como habitamos o nosso próprio mundo.
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