James Blake construiu ao longo dos anos um lugar muito particular na música contemporânea: um território onde a electrónica minimalista se encontra com o silêncio, onde o piano pesa tanto quanto os sintetizadores e onde a voz parece sempre suspensa entre a confissão e o eco. Em Trying Times, o seu sétimo álbum de estúdio, essa geografia emocional regressa mais nítida do que nunca, como se cada canção fosse uma pequena tentativa de compreender o mundo quando o mundo parece demasiado grande.
Este disco surge também num momento simbólico da carreira de Blake. É o primeiro que publica totalmente de forma independente, através da sua própria editora, depois de se afastar das grandes estruturas da indústria musical.
Musicalmente, Trying Times volta a ligar diferentes momentos da sua carreira. Há ecos da electrónica profunda dos primeiros anos, aquela pulsação grave que parece nascer debaixo da música, mas também o lado mais humano do compositor que se senta ao piano e deixa a melodia respirar. Canções como “Death of Love” mergulham numa atmosfera sombria, construída sobre camadas de voz e sintetizadores que lembram as raízes dubstep de Blake, enquanto outras, como “I Had a Dream She Took My Hand” abrem espaço a uma inesperada leveza quase soul, com uma aura retro que parece chegada de outra década.
Ao longo do disco aparecem pequenas colaborações que expandem o horizonte sonoro sem quebrar a intimidade do projeto. O rapper britânico Dave surge num dos momentos mais urbanos do álbum e a cantora Monica Martin acrescenta uma delicadeza vocal que encaixa naturalmente no universo de Blake.
Num tempo que parece cada vez mais ruidoso, James Blake continua a fazer aquilo que sempre fez melhor: criar espaço para ouvir o que sentimos quando finalmente o mundo se cala.
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