“Lembra-me um Sonho Lindo”, na interpretação de Emmy Curl (Catarina Miranda), consegue pegar numa canção profundamente enraizada na música portuguesa e transformá-la em algo simultaneamente íntimo, etéreo e novo sem perder a alma original.
A música pertence originalmente a Fausto Bordalo Dias, uma das figuras mais importantes da música portuguesa de autor, conhecido pela capacidade rara de cruzar tradição popular, literatura e identidade histórica em canções profundamente narrativas. A obra de Fausto sempre teve essa qualidade muito específica: músicas que parecem carregar memória coletiva dentro delas.
A sua versão, composta para orquestra, com pequenos momentos em que certas palavras parecem deslizar para o mirandês, trazendo consigo as suas profundas raízes transmontanas, move-se num território entre a dream pop e um folk delicadíssimo, construindo uma paisagem sonora de enorme detalhe e bom gosto. Tudo soa suspenso entre tradição, memória e sonho, como se a canção tivesse sido lentamente envolvida numa névoa emocional que lhe dá uma nova dimensão sem nunca perder a alma original.
A letra original de Fausto já carregava uma enorme melancolia ligada à memória, ao sonho e à impossibilidade de recuperar plenamente certas emoções do passado. O que Emmy Curl faz é amplificar essa dimensão quase onírica da música. A interpretação dela torna a canção menos narrativa e mais sensorial.
O videoclip, gravado no Rio Corgo por Look Closer, exponencia ainda mais esse momento especial da canção, envolvendo-a numa atmosfera quase suspensa entre memória e sonho. As paisagens naturais, as ninfas, a luz suave e o ritmo contemplativo das imagens acabam por reforçar exatamente aquilo que Emmy Curl encontra nesta interpretação: a tentativa delicada de preservar intacta uma emoção demasiado bonita para desaparecer.
Existe aqui quase como uma súplica entre o sonho lindo e a necessidade de o conservar imutável, guardado num lugar muito especial e de uma beleza absoluta.
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