Há músicos cuja morte encerra uma carreira. A de Glen Hansard parece interromper uma conversa.
Uma conversa iniciada nas ruas de Dublin, quando era ainda adolescente e cantava para quem passava, muito antes de existirem Óscares, digressões internacionais ou salas cheias. Glen nunca perdeu completamente essa origem. Mesmo quando subia aos maiores palcos, continuava a existir nele qualquer coisa do músico de rua: a necessidade de conquistar cada pessoa individualmente, a recusa em tratar o público como uma massa anónima e a convicção de que uma canção só está verdadeiramente terminada quando encontra alguém disposto a recebê-la.
Glen Hansard morreu a 29 de julho de 2026, aos 56 anos, na sequência de um acidente de mota nos arredores de Dublin. A notícia interrompeu uma vida ainda plenamente ativa, deixando a música irlandesa sem uma das suas vozes mais reconhecíveis e a cidade sem uma figura que se tornara inseparável das suas ruas, dos seus músicos e da sua consciência social.
Nascido em Ballymun, em Dublin, Hansard começou a tocar nas ruas ainda jovem e transportou essa experiência para tudo o que viria depois. Em 1990, fundou os The Frames, banda que se tornaria fundamental para compreender o rock irlandês das décadas seguintes. O percurso esteve longe de ser imediato ou simples.
Também em 1991, Glen apareceu em The Commitments, de Alan Parker, interpretando o guitarrista Outspan Foster. O filme tornar-se-ia uma obra central do imaginário musical irlandês, mas Hansard nunca se deixou transformar prioritariamente em ator. A representação permaneceu uma passagem; a música continuava a ser o lugar onde encontrava a sua verdadeira linguagem.
Essa relação entre cinema, cidade e canção regressaria de forma decisiva em Once. Realizado por John Carney, antigo baixista dos The Frames, o filme apresentava Hansard e Markéta Irglová como dois músicos anónimos que se encontram em Dublin e descobrem, através das canções, uma intimidade que a vida quotidiana dificilmente lhes permitiria construir. Filmado com meios reduzidos e sem a grandiosidade habitual das histórias de amor cinematográficas, Once parecia compreender algo essencial sobre a música: por vezes, duas pessoas não precisam de permanecer juntas para mudarem definitivamente a vida uma da outra.
“Falling Slowly”, composta por Hansard e Irglová, conquistou o Óscar de Melhor Canção Original em 2008. O prémio poderia ter alterado a natureza de Glen, afastando-o das salas pequenas, das atuações improvisadas e da relação direta com quem o escutava. Aconteceu quase o contrário. O reconhecimento internacional ampliou o seu alcance, mas não eliminou a sensação de que continuava a cantar como quem está numa rua de Dublin, diante de pessoas que podem parar ou continuar a caminhar.
Com Markéta Irglová formou também os The Swell Season, prolongando fora do cinema a cumplicidade musical que tornara Once tão especial. A delicadeza da voz e do piano de Irglová encontrava na intensidade de Hansard um contraste que nunca parecia oposição. As canções viviam precisamente desse equilíbrio entre duas maneiras diferentes de ocupar o silêncio.
A carreira a solo, iniciada com Rhythm and Repose em 2012, continuou com trabalhos como Didn’t He Ramble, nomeado para um Grammy, Between Two Shores, This Wild Willing and All That Was East Is West of Me Now.
Glen Hansard nunca cantou como alguém que acreditasse que todas as feridas possuem uma explicação. As suas canções reconheciam a perda, a culpa, o amor, o desejo e a esperança como forças frequentemente contraditórias. Não procuravam corrigir a fragilidade humana, mas criar um lugar onde ela pudesse ser admitida sem vergonha. Havia nelas uma espiritualidade sem doutrina, nascida menos da certeza do que da disponibilidade para continuar a procurar.
Essa proximidade não terminou quando os concertos acabavam. Glen permaneceu ligado à realidade social de Dublin, sobretudo à situação das pessoas sem-abrigo. A tradicional atuação de rua na véspera de Natal, que reunia músicos conhecidos para apoiar a Dublin Simon Community, tornou-se uma das expressões mais visíveis dessa preocupação. O homem que começara a cantar nas ruas regressava a elas não para recriar romanticamente o início da carreira, mas para utilizar a atenção conquistada em benefício de quem continuava a viver nelas.
Essa coerência talvez explique a dimensão da perda sentida na Irlanda. Glen Hansard não era apenas um músico irlandês bem-sucedido no estrangeiro. Pertencia à vida cultural e humana de Dublin. Podia receber um Óscar e, anos depois, voltar a aparecer numa rua, num pub ou numa cerimónia dedicada a uma figura da cultura irlandesa, cantando como se aquele momento fosse tão importante quanto qualquer palco internacional.
Nos últimos anos, a sua vida tinha adquirido uma nova dimensão através do casamento com a poeta finlandesa Maire Saaritsa e do nascimento do filho, Christy. Não parecia alguém a organizar retrospectivamente o próprio legado. Parecia alguém ainda no interior da vida, com canções para escrever, pessoas a quem regressar e caminhos por percorrer.
É talvez essa a parte mais difícil de aceitar numa morte tão inesperada. Glen Hansard não deixa apenas uma obra concluída. Deixa a sensação de uma voz interrompida a meio de uma frase. Uma canção cuja intensidade parecia anunciar ainda muitos outros versos.
Mas a música tem uma relação particular com a ausência. Depois da morte de quem a criou, deixa de pertencer apenas à biografia do artista e passa definitivamente para a vida de quem a escutou. Glen Hansard passou a vida a transformar encontros em canções. A sua morte deixa agora uma cidade, uma comunidade musical, uma família e milhares de ouvintes diante do silêncio impossível de um último adeus.
Mas enquanto alguém voltar a pegar numa guitarra numa rua de Dublin e acreditar que uma canção pode fazer uma pessoa parar, Glen continuará, de alguma maneira, a fazer parte da conversa.
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