Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Cristina Branco construiu uma das trajetórias mais singulares da música portuguesa. Partindo do fado, mas recusando sempre permanecer limitada pelas suas fronteiras mais previsíveis, foi criando uma obra onde convivem tradição, literatura, canção de autor e uma permanente curiosidade artística.
Desde a nossa última conversa, passaram vários anos e vários discos. Alguns aprofundaram territórios já familiares, outros abriram novas possibilidades criativas, culminando mais recentemente em projetos como Mãe and Mulheres de Abril, trabalhos que dialogam simultaneamente com a memória, a identidade e o presente.
Nesta entrevista para o Musical Eclecticism, regressamos a temas que já tinham marcado o nosso encontro anterior: a dúvida, a relação com os textos, a transformação constante das canções e a forma como a música comunica para lá das palavras.
Ecletismo Musical (EM): Desde a nossa última entrevista, passaram vários anos e projetos, incluindo discos muito distintos entre si. O que é que sentes que se tornou mais claro no teu caminho e o que ficou mais em dúvida?
Cristina Branco: Dúvidas existem sempre, mas voltaria a fazer tudo. Acredito que a dúvida faz parte do crescimento e isso sim, cresci bastante. Vocalmente e também na interpretação e que é essa última que me distingue, que me faz ser a cantora que sou. A evolução vocal tem a ver com essa procura e encontrar ferramentas que possam ajudar a criar o tal mundo por onde a voz tem que passar.
EM: Depois de tudo o que já fizeste, ainda estás à procura de alguma coisa ou hoje trata-se mais de aceitar o que já encontraste?
Cristina Branco: Estarei sempre à procura.
EM: Na nossa última conversa falávamos também da tua relação com as palavras e da forma como te colocas dentro de um texto que não é teu. Hoje, com mais distância, sentes que te aproximaste mais da ideia de habitar essas palavras ou de as transformar para que possam caber em ti? Onde é que termina o autor e começas tu?
Cristina Branco: No momento em que o texto chega até mim, passa a ser também meu e sim, entro e faço dele a minha história.
EM: Quando regressas a uma canção que cantas há muitos anos, estás a reencontrar algo fixo ou a confrontar uma versão antiga de ti mesma que já não existe? E como é que te continuas a reinventar dentro dessa repetição?
Cristina Branco: Nem uma coisa nem outra, é sempre novo, há sempre algo a descobrir porque todos os dias são diferentes e a predisposição traz esse “futuro” às coisas, é a parte divertida das coisas.
EM: Há uma linha muito clara no teu percurso entre contenção e intensidade. Entre aquilo que escolhes mostrar e aquilo que manténs fora da canção. Essa fronteira ainda é uma escolha consciente ou já se tornou uma forma de te protegeres daquilo que a música poderia expor?
Cristina Branco: Na música tudo é carne viva, não daria para omitir nada. Sou eu e os textos.
EM: Grande parte do teu percurso foi construída perante públicos que não entendem a língua. Nesses momentos, o que sentes que está realmente a ser comunicado: o significado das palavras ou algo anterior a elas, mais físico, mais universal?
Cristina Branco: Neste momento acho pertinente envolver a história que levo ao palco, os textos, na minha história e tornar tudo isso num discurso eminentemente social e comprometido com os valores que eu defendo. Do multiculturalismo ao feminismo, dos valores democráticos à xenofobia. Afinal canto a vida e posso conduzir o meu discurso e dizer o que penso porque realisticamente tudo se encaixa. Sempre tive uma linha condutora naquilo que canto e não é descabido enquadrar textos cantados e um discurso ativamente empenhado.
EM: Disseste que Menina, Branco and Eva formam uma trilogia fora do fado, um espaço de expansão que culmina depois em Mãe, um regresso ao fado tradicional . Esse regresso é um retorno consciente ou uma consequência inevitável desse afastamento?
Cristina Branco: É um retorno natural por ser o meu território mais visceral. O processo criativo e também de descoberta, saltar fora da caixa (como as pessoas gostam de dizer) foi e será sempre uma necessidade. Aprende-se muito a olhar de fora para dentro.
EM: Em Mulheres de Abril, regressas ao universo de José Afonso, mas a partir de um foco muito específico: as mulheres das suas canções, muitas vezes envoltas em silêncio. Quando decides cantá-las, estás a dar-lhes voz ou a revelar o silêncio que sempre esteve lá?
Cristina Branco: Estou a dar a minha voz a mulheres que estavam perdidas dentro do universo do Zeca. Ele enumerou-as e eu aponto o dedo, porque elas ainda existem. Volvidos 50 anos, nada mudou, eventualmente mudamos nós, mulheres. Perdemos o medo e ganhamos a liberdade (ameaçada novamente) de nos exprimirmos e contestarmos.
EM: Em 2018, referiste que no teu Festival ideal colocavas:”Marisa Monte, Jacques Brel, Gregory Porter, Nick Cave, Sting, Chico Buarque…e este festival durava um ano inteiro se continuasse a enumerar nomes!” No entretanto, em 2026, acrescentavas algum nome que tenhas descoberto entretanto e que tenha surpreendido verdadeiramente?
Cristina Branco: Raye, Rosalía, Silvia Pérez Cruz…
EM: Depois destes últimos trabalhos, que parecem fechar vários ciclos ao mesmo tempo, sentes que estás num ponto de recomeço? Há algo que já esteja a nascer, mesmo que ainda sem forma definida, e que possas deixar entrever?
Cristina Branco: Quando mergulhas tão fundo dentro de ti, quando a procura do teu mister, da arte é pensada e questionada, as possibilidades de criação são imensas. Diria que só na impossibilidade de continuar a executar aquilo que me apaixona é que cessarei de procurar, ou então não, procurarei outros canais via o outro ou outro objeto de reflexão que não a voz.
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