Há um ano escrevemos que o Sziget era ainda uma utopia temporária. Durante alguns dias, uma ilha no Danúbio transformava-se num pequeno mundo paralelo onde centenas de milhares de pessoas, vindas de centenas de países, podiam ouvir música, descobrir arte, cruzar culturas e experimentar uma ideia simples, mas cada vez menos banal: a de que pessoas profundamente diferentes conseguem partilhar o mesmo espaço.
Um ano depois, a palavra mais importante talvez já não seja utopia. É (construir um) futuro.
O Sziget 2026 apresenta-se em Budapeste num dos momentos mais delicados da sua história recente. Depois de anos sob propriedade estrangeira, o festival regressou a mãos húngaras e viu Károly Gerendai, um dos seus fundadores, voltar a ocupar um lugar determinante no projeto. A mudança aconteceu tarde, num processo que atrasou em vários meses a organização e a venda de bilhetes, deixando pouco tempo para construir uma edição que tinha uma missão maior do que simplesmente voltar a encher a Ilha de Óbuda.
Musical Eclecticism
Era necessário mostrar uma direção que garantisse a sua viabilidade.
Entre 11 e 15 de agosto, quase 360 mil visitantes passaram pelo Sziget, provenientes de mais de 110 países. É um número considerável para praticamente qualquer festival europeu, mas inferior aos 416 mil registados em 2025, embora a comparação não seja completamente linear: no ano passado o festival decorreu durante seis dias, enquanto em 2026 os passes regulares abrangeram cinco, antecedidos por dois dias especiais dirigidos sobretudo a um público húngaro mais velho.
O festival teve menos gente. E isso foi simultaneamente um problema e uma vantagem.
Financeiramente, naturalmente, menos público não é uma boa notícia. Para quem estava dentro da ilha, porém, o resultado foi um Sziget bastante respirável. Era mais fácil deslocar-se entre os diferentes espaços, havia menos momentos de aperto junto aos grandes palcos, as filas eram geralmente toleráveis naquele enquadramento de festival e toda a enorme infraestrutura parecia funcionar com uma naturalidade ainda maior.
A exceção mais evidente surgiu sobretudo na entrada do primeiro dia, quando alguns visitantes chegaram a perder parte de concertos devido à lentidão no acesso pela K-Bridge. A principal ligação à ilha, e que no fundo representa o primeiro símbolo da diferença entre o Sziget e os outros grandes festivais europeus é uma estrutura envelhecida que, no seu estado atual, obriga a limitar o número de pessoas que a podem atravessar simultaneamente. A sua renovação, há muito necessária, deverá finalmente avançar por fases.
Musical Eclecticism
Num festival que ocupa dezenas de hectares e onde a melhor programação frequentemente exige atravessar a ilha várias vezes por dia, a fluidez geral não é um detalhe. É uma vantagem competitiva muito significativa.
Mas seria um erro concluir que o Sziget necessita de menos público. O verdadeiro desafio será recuperar visitantes internacionais sem perder esta sensação de espaço, conforto e liberdade de circulação. Porque existe também outra transformação importante nos números de 2026: 53% dos visitantes foram húngaros.
O regresso a uma identidade mais ligada à própria cidade e ao país foi visível em vários pontos da programação, sobretudo através do Budapest Park Stage, onde artistas húngaros encontraram um espaço relevante dentro de um festival que durante alguns anos parecia progressivamente desenhado sobretudo para o turismo musical internacional.
A dimensão internacional faz parte da essência do Sziget, mas essa internacionalização torna-se muito mais interessante quando existe em diálogo com a cultura do lugar onde acontece. Este regresso do público húngaro coincide ainda com dois movimentos particularmente simbólicos: o regresso do festival à propriedade húngara e uma profunda transformação política no país, depois do fim de 16 anos de governação de Viktor Orbán.
Não significa necessariamente que exista uma relação direta entre estes acontecimentos e seria demasiado simples estabelecê-la. O reforço da programação húngara, os dias especiais antes do festival e a quebra de alguns dos tradicionais mercados internacionais oferecem explicações muito mais imediatas. Mas colocam o Sziget de 2026 dentro de um contexto de mudança que ultrapassa claramente as fronteiras da própria ilha.
Em 2025 escrevemos que reduzir o Sziget ao seu cartaz musical era não compreender verdadeiramente aquilo que acontece na Ilha de Óbuda. Em 2026, o festival parece ter decidido reforçar precisamente esse argumento.
Musical Eclecticism
O Jardin des Arts criou pequenos universos dentro do universo maior. Circo, dança contemporânea, instalações, performances e acontecimentos inesperados voltaram a ocupar uma parte importante da experiência. O Grand Theatre acrescentou outra escala às artes performativas, enquanto o regresso do Luminarium recuperou um daqueles espaços que, para muitos Szitizens, pertencem à memória afetiva do festival.
Também voltou o Before I Die Wall, que pode parecer apenas uma parede onde desconhecidos escrevem aquilo que gostariam de fazer antes de morrer. Mas o Sziget vive precisamente destes pequenos apontamentos que criam experiência e memórias.
Do momento em que se está a caminhar para um concerto e se acaba a assistir a um espetáculo que se desconhecia s num mini palco como o Light, da instalação onde se entra por curiosidade. Do artista de rua que obriga a parar ou da festa secreta que se descobre porque se ouve música atrás das árvores. Das conversas que se têm e das pessoas que se conhecem e com quem se partilham momentos. Num festival em que é possível ter-se uma experiência individual muito boa, vivenciá-lo com boa companhia torna necessariamente a experiência em algo muito melhor e único.
É aí que o Sziget continua diferente de quase todos os grandes festivais europeus. E foi talvez aí que 2026 mais se aproximou novamente das suas raízes.
Musicalmente, o Main Stage apresentou um cartaz menos avassalador do que algumas edições anteriores. Num festival desta dimensão, é inevitável que nomes como Florence + The Machine, Twenty One Pilots, Bring Me The Horizon, Lewis Capaldi, Zara Larsson ou Skrillex concentrem grande parte das atenções, e vários deles entregaram precisamente o espetáculo de grande escala que se espera daquele palco.
SOMBR chegou no momento quase perfeito da sua ascensão, com milhares de pessoas a confirmarem que algumas carreiras conseguem crescer mais depressa do que os próprios cartazes dos festivais conseguem acompanhar, e que, a idade (21 anos) pouco diz sobre a maturidade e construção irrepreensível de um espetáculo de massas.
Zara Larsson transformou o enorme espaço diante do Main Stage numa celebração pop e arrastando uma multidão de fãs. Os Twenty One Pilots mostraram novamente que o espetáculo pode ser tão importante como a canção. Já os Bring Me The Horizon trouxeram de volta uma dimensão mais pesada que durante algum tempo parecia ter perdido espaço na identidade recente do Sziget.
Marton Monus
Mas continuar a medir a qualidade do festival apenas através daqueles nomes seria repetir o erro que já apontávamos em 2025.
Porque o cartaz do Sziget é muito eclético e variado. Concertos como os de Parcels, Lambrini Girls, Chet Faker, Zimmer90, Nia Archives, Underworld, Dijon ou Bunt. que encheram o Revolut Stage, passando por muitos outros palcos, onde se viram excelentes apresentações de bandas como o Giant Rooks, Evening Elephants, Baby Lasagna, Pales, Cassia, Nation of Language, estiveram também entre os concertos que mostraram como o festival continua capaz de recompensar quem se afasta do percurso mais óbvio.
E depois existem todos os outros. Centenas deles. Alguns diante de milhares de pessoas, outros perante algumas dezenas. É aqui que continua a existir a verdadeira dimensão eclética do Sziget. Não necessariamente no topo do cartaz, mas na possibilidade de, durante o mesmo dia, caminharmos entre indie, metal, hip hop, pop, techno, folk, drum and bass, jazz, música tradicional, circo ou dança sem sentir que estamos a mudar de festival.
Um dos exemplos mais claros desta ideia de vários festivais dentro do próprio Sziget foi o Delta District, que concentrou grande parte da programação eletrónica da ilha em três espaços com identidades distintas ao longo das cinco noites.
O renovado BOLT Night Stage assumiu a escala maior, recebendo nomes como Dom Dolla, Peggy Gou, Sara Landry, Indira Paganotto, BIIA, Argy, Boys Noize, Sub Focus, Dimension, WhoMadeWho e Zomboy, enquanto o Yettel Colosseum, com a sua pista circular de 360 graus construída entre milhares de paletes, continuou a oferecer um dos cenários mais particulares do festival, por onde passaram artistas como Richie Hawtin, Dixon, Joris Voorn, Patrick Mason, ANNA, Anetha, HAAi, CC:DISCO!, Vintage Culture e ¥ØU$UK€ ¥UK1MAT$U.
A completar o triângulo surgiu o Arzenál x Turbina: Der Klub, desenvolvido em colaboração com dois nomes importantes da cultura de clubes de Budapeste e pensado como uma alternativa mais pequena e underground, com atuações de KiNK, Shonky, Charlie Sparks, DJ Fuckoff, fka.m4a e Koven, entre muitos artistas e residentes húngaros. Mais do que simplesmente reunir DJs numa mesma zona, o Delta District deu à música eletrónica uma geografia própria dentro da ilha, permitindo passar da dimensão quase monumental do BOLT para a intensidade circular do Colosseum e, finalmente, para uma experiência muito mais próxima de um verdadeiro clube noturno. Foi também um dos melhores exemplos de como o Sziget pode criar identidades muito fortes dentro do festival sem deixar de transmitir a sensação de que tudo continua a pertencer ao mesmo universo.
Ladoczki_Balazs
A organização parece ter percebido que o futuro pode passar por construir vários pequenos festivais dentro do Sziget. Os diferentes distritos ganham progressivamente identidades próprias, permitindo que alguém quase viva durante horas num determinado universo antes de atravessar algumas centenas de metros e encontrar outro completamente diferente.
Essa fragmentação não destrói a identidade, pode ser precisamente aquilo que a salva. E talvez seja também aqui que esteja uma das respostas para uma questão que há vários anos persegue o Sziget.
Não é sustentável tentar vencer eternamente a corrida pelo artista mais caro, mais viral ou mais presente no algoritmo daquele verão. Há sempre outro festival disposto a fazer o mesmo.
A verdadeira diferença poderá estar precisamente naquilo que não pode ser facilmente copiado: a diversidade do espaço, a programação paralela, a descoberta, a ligação a Budapeste e a possibilidade de alguém passar um dia inteiro no Sziget sem sequer se aproximar do Main Stage e continuar a sentir que viveu um grande festival.
Há, contudo, contradições que continuam impossíveis de ignorar. O Sziget permanece uma gigantesca máquina comercial. Marcas, bares, ativações e espaços patrocinados ocupam parte da ilha. Os preços continuam elevados, particularmente quando observados a partir do poder de compra húngaro (ou português), e existe sempre uma tensão difícil de resolver entre a ideia romântica de Island of Freedom e um festival desta dimensão, com custos enormes e uma infraestrutura que precisa inevitavelmente de financiamento.
Já o escrevíamos no ano passado. O Sziget de hoje não é, nem poderá voltar a ser, a pequena Diáksziget criada em 1993. Também não poderá fingir que é. O desafio não está em eliminar a dimensão comercial, algo praticamente impossível num evento desta escala. Está em impedir que ela se transforme na dimensão dominante.
majorkata
Enquanto conseguirmos caminhar entre dois enormes espaços de marcas e encontrar no meio deles um grupo de acrobatas, uma instalação estranha, uma pequena banda desconhecida ou duas pessoas sentadas no chão a conversar em línguas diferentes, ainda existe ali qualquer coisa que o dinheiro não consegue fabricar.
2026 teve também um adversário impossível de ignorar: o calor.
Dias consecutivos acima dos 30 graus e uma ilha extremamente seca voltaram a colocar o problema do pó no centro da experiência. A organização cobriu mais zonas de circulação, reforçou pontos de água e tentou controlar o terreno através de rega, num esforço que era claramente visível. Mas continua a existir trabalho estrutural a fazer.
Num festival sujeito a temperaturas cada vez mais extremas, o acesso gratuito à água deveria aproximar-se de ser omnipresente em toda a ilha. Houve mais pontos disponíveis, mas continuaram a surgir críticas à sua quantidade.
A intenção de criar poços permanentes para permitir uma rega continuada da ilha e reduzir o problema do pó poderá representar uma melhoria estrutural importante para as próximas edições e é mais um exemplo de como organizar o Sziget significa gerir praticamente uma cidade com uma população temporária maior do que muitas cidades europeias.
Talvez seja também por isso que comparar simplesmente números de cartazes seja tão pouco interessante. O Sziget não compete apenas com outros festivais pela melhor lista de artistas.
Compete pela experiência. E nesse campo continua a possuir uma vantagem difícil de copiar: a Ilha de Óbuda.
Uma floresta no meio do Danúbio, dentro de uma das grandes cidades europeias, transformada durante alguns dias num espaço onde se pode entrar às três da tarde para assistir a um concerto e descobrir às quatro da manhã que ainda não existe qualquer razão convincente para regressar a casa.
Em 2025 saímos do Sziget convencidos de que a sua maior força continuava a ser precisamente aquilo que não cabia num cartaz.
Em 2026 essa convicção tornou-se ainda mais forte. Esta não foi uma edição perfeita. Mas seria injusto avaliar 2026 apenas através das suas fragilidades.
Com poucos meses para preparar uma edição inteira, uma mudança de propriedade ainda recente e várias incertezas sobre o próprio futuro, o Sziget conseguiu fazer algo mais importante do que simplesmente sobreviver.
Mostrou uma direção. E, sobretudo, deixou novamente a sensação de que existe uma ideia por trás da organização.
O Sziget não precisa de regressar ao passado. Precisa de perceber o que fez com que tantas pessoas se apaixonassem por ele e descobrir como traduzir isso para uma nova geração.
O Sziget é sobretudo descoberta a cada esquina, a imprevisibilidade, diversidade e a possibilidade de não sabermos exatamente onde vamos estar daqui a duas horas.
A sensação de que, quando atravessamos a ponte e entramos naquela ilha, durante alguns dias as regras do mundo exterior ficam ligeiramente mais distantes.
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