Celebrar 20 anos de uma editora pode facilmente transformar-se num exercício nostálgico. Mas o aniversário dos 20 anos da editora Enchufada em Londres, fez exatamente o contrário: mostrou que aquilo que começou em Lisboa em 2006 continua vivo porque nunca ficou preso a um único som, uma única cidade ou uma única geração.
Fundada por Branko e Kalaf Epalanga ao lado do nascimento dos Buraka Som Sistema, a Enchufada acabou por redefinir a forma como a música de clube feita em Portugal era vista no mundo. O que começou como fusão entre kuduro angolano e eletrónica europeia rapidamente se tornou muito mais do que isso: uma plataforma para culturas diaspóricas, ritmos globais e novas linguagens de pista de dança.
O evento londrino no The Lower Third a 9 de Maio, fazia parte dessa celebração internacional associada à compilação Enchufada: A Lisbon Club Story, editada este ano para marcar as duas décadas da editora. E o mais impressionante foi perceber como, passados vinte anos, a identidade da Enchufada continua imediatamente reconhecível, não por soar igual ao passado, mas pela capacidade contínua de cruzar geografias, ritmos e gerações sem perder coerência.
Havia passado, claro. Sobretudo quando temas históricos dos Buraka voltavam a surgir no sistema de som como lembrete de quão radical aquela mistura parecia nos anos 2000. Mas a noite nunca viveu da nostalgia. Pelo contrário: o foco parecia estar constantemente no movimento e continuidade.
Não eram ainda muitos os presentes quando Kalaf iniciou o seu DJ set. As pessoas iam chegando lentamente, a maioria portugueses à procura de voltar a dançar ao som dos temas e daquele conforto muito específico que só a música “de casa” consegue trazer. O cruzamento de culturas e o ecletismo estiveram presentes desde o primeiro momento, em cada tema que Kalaf, com o seu habitual ar calmo e contemplativo, ia fazendo sair das colunas de um espaço com excelente som.
Já com a pista mais composta, foi a vez da convidada da noite, a DJ londrina Tash LC, literalmente deitar a casa abaixo com um set explosivo e profundamente físico, numa mistura que cruza música eletrónica com ritmos afro-diaspóricos, caribenhos e latino-americanos.
Especialmente conhecida pelas residências na NTS Radio, BBC 1Xtra, Worldwide FM e Kiss FM, Tash LC mistura kuduro com afro house, merengue, dancehall e eletrónica experimental numa mescla muito própria e que teve receção calorosa por parte do público presente.
O que torna Tash LC particularmente relevante no contexto da Enchufada é o facto de trabalhar exatamente o mesmo tipo de ponte cultural que a editora ajudou a criar ao longo dos últimos vinte anos: música de clube construída a partir de diásporas, migração, ritmos globais e cenas periféricas. Por isso, a sua presença nesta celebração em Londres fez total sentido.
Seguiu-se Branko, o membro da Enchufada atualmente com maior exposição pública tendo em conta os múltiplos projetos e colaborações que tem vindo a lançar ao longo dos tempos. Mas, tal como estava anunciado, fez um set “enchufada ONLY set”. Passou pelo novo tema dos Buraka Som Sistema, mas igualmente por temas clássicos reconhecidos pelo entusiasmo do público. Teve ainda tempo para dar alguns bombons a quem estava presente com “N’Essa Rua” single que lançou em parceria com Tainá. Num set de celebração de uma história, Branko, com a consistência de sempre apresentou um set muito dançado por todos os presentes.
Houve ainda tempo para Pedro da Linha que apresentou um set com diversos originais e de um final de festa com o regresso de Branko aos pratos juntamente com os seus camaradas de percurso para fechar a noite em grande festa.
Num espaço que merecia claramente mais público, talvez o facto de os Buraka Som Sistema, o nome maior e mais reconhecível da história da editora, só recentemente terem regressado à atividade tenha feito com que muitos portugueses residentes em Londres, e não só, não tenham aderido com a intensidade que a celebração merecia. Ainda assim, quem tomou a boa decisão de estar presente acabou por assistir a uma noite muito especial: não apenas uma festa de aniversário, mas a confirmação de que a Enchufada continua a representar uma das linguagens mais únicas e influentes da música de clube nascida em Portugal.
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