Em 2018, quando o Ecletismo Musical subiu Monsanto para acompanhar o Festival Iminente, era difícil perceber onde acabava o festival e começava o edifício.
O Panorâmico de Monsanto foi durante décadas muitas coisas antes de se transformar numa das ruínas mais reconhecíveis de Lisboa. Naquele fim de semana de setembro, transformou-se totalmente. Havia música na cave, concertos no exterior, intervenções espalhadas pelo betão, pessoas a subir e a descer pisos sem saber exatamente o que encontrariam a seguir e Lisboa inteira a aparecer, de vez em quando, através daquele horizonte de 360 graus.
Por lá passaram nomes como Conan Osiris, Bonga, Omar Souleyman. Valete, Kool G Rap, Havoc dos Mobb Deep e DJ Maseo dos De La Soul, mas igualmente Sara Tavares, Gisela João, Fogo Fogo, Marta Ren & The Groovelvets, Dengue Dengue Dengue ou Carlão.
Era possível entrar numa divisão sem saber exatamente o que acontecia lá dentro, parar diante de uma parede, seguir um som que vinha de outro piso ou simplesmente esquecer durante algum tempo o concerto para o qual se estava inicialmente a caminhar. Vhils, Wasted Rita, ±MAISMENOS±, André Saraiva, Francisco Vidal e outros artistas tinham espalhado trabalho pelo Panorâmico e Marielle Franco, assassinada poucos meses antes no Rio de Janeiro, permanecia também nas paredes e na memória de uma edição onde arte e intervenção nunca surgiam completamente separadas.
Oito anos depois, essa memória torna particularmente interessante o regresso do Iminente.
Entre 17 e 20 de setembro, o festival celebra dez anos e volta a escolher em Lisboa um espaço que deixou de cumprir a função para a qual foi construído. Desta vez não é um antigo restaurante panorâmico abandonado no meio de Monsanto, mas a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, encerrada desde 2010 e novamente aberta ao público durante quatro dias.
Há qualquer coisa de profundamente coerente nesta escolha. Porque ocupar temporariamente um edifício abandonado com música e arte é também perguntar o que pode ainda acontecer dentro de lugares que a cidade deixou para trás.
Durante quatro dias, salas onde antes se ensinava transformam-se em espaços de exposição. Os corredores deixam de servir apenas para ligar aulas e passam a fazer parte de um percurso artístico. Até José Saramago regressa simbolicamente à escola onde estudou, através de um trabalho de Vhils que recupera o rosto do escritor e o coloca em diálogo com o mar.
Mas se existe continuidade entre o Panorâmico de 2018 e Marvila em 2026, ela não está apenas na ocupação de espaços improváveis.
DJ Premier pode existir no mesmo programa que Gisela João. Sam The Kid pode apresentar “Beats Vol.1: Amor” acompanhado por Orquestra e Orelha Negra enquanto Lena d’Água, Ana Lua Caiano, A Garota Não, Expresso Transatlântico, Capicua, Dino D’ Santiago, Luedji Luna, Bahamadia, Black Milk, Conway the Machine, Xullaji ou Mão Morta ocupam outros lugares de um cartaz que continua pouco interessado em respeitar divisões demasiado rígidas.
Há ainda regressos carregados de significado.
Os Mind Da Gap voltam aos palcos, recuperando uma parte fundamental da história do hip-hop português. Original Kappa, nome que Allen Halloween escolheu para este novo capítulo da sua vida artística, atravessa diferentes momentos do seu percurso em “Noite da Lisa”. Batida regressa a “Modelo Africano” uma década depois de o ter apresentado na primeira edição do Iminente.
E há encontros que só fazem sentido porque alguém decidiu criar condições para que acontecessem. UN!DD reúne Acácia Maior, Cachupa Psicadélica, Scúru Fitchádu e Fidju Kitxora numa criação pensada para o festival, colocando em diálogo quatro formas diferentes de trabalhar uma nova música de matriz cabo-verdiana feita em redor de Lisboa. Tradição, funaná, rock, spoken word, dub e eletrónica deixam de precisar de escolher a gaveta onde pertencem.
É provavelmente aí que o Iminente continua mais interessante. Não quando apresenta cultura urbana como um género, mas quando a entende como consequência de uma cidade e todo o seu ecletismo.
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