Não é a primeira vez que o Ecletismo Musical olha para o All Together Live. Em 2025, quando Tim assumiu o centro de uma das suas edições para revisitar três clássicos dos Xutos & Pontapés, destacávamos precisamente a capacidade do projeto para retirar estas músicas do lugar habitual do concerto e devolvê-las através de centenas de instrumentos e pessoas de idades e percursos diferentes.
A edição de 2026 do All Together Live levou cerca de 300 músicos aos Jardins do Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, para tocar com os Tara Perdida, num encontro entre músicos profissionais, amadores e alunos de diferentes gerações.
Desde 1995, os Tara Perdida construíram uma identidade muito própria. Havia em João Ribas uma forma particular de transformar vulnerabilidade em confronto e, depois da sua morte, em 2014, seria fácil imaginar que a história da banda ficaria inevitavelmente presa à nostalgia, à memória de uma determinada geração ou à comparação constante entre aquilo que existiu e aquilo que veio depois.
Mas as músicas continuaram. Continuaram nos concertos, no moche que ainda reúne diferentes gerações e em quem as foi descobrindo muito depois de terem sido escritas. E talvez seja precisamente isso que estas imagens conseguem tornar particularmente evidente: há músicos naquele enorme conjunto que pertencem à geração dos Tara Perdida e outros que chegaram às suas canções quando João Ribas já fazia parte da memória do punk português.
O All Together Live funciona aqui quase como uma fotografia dessa passagem, sendo que é muito interessante perceber porque continuam estas músicas a justificar que alguém pegue numa guitarra, num baixo ou num par de baquetas para as voltar a tocar trinta anos depois.
E existe qualquer coisa profundamente punk nessa resposta. Não o punk enquanto género encerrado numa determinada estética, mas naquele princípio elementar que esteve sempre na sua origem: pega num instrumento e toca.
O punk nunca precisou verdadeiramente da perfeição para existir. Há ainda uma curiosa pertinência em assistir a estas imagens em 2026, num momento em que a música discute cada vez mais aquilo que pode ser produzido artificialmente, o All Together Live coloca diante de nós precisamente o oposto.
Os próprios Tara Perdida resumiram recentemente a sua posição sobre inteligência artificial e criação musical numa frase suficientemente direta: a IA “não vai conseguir dar a volta ao Rock”.
Talvez porque aquilo que mantém o rock vivo nunca tenha sido apenas o som. É também aquilo que aconteceu antes de uma música existir e tudo aquilo que lhe acontece depois. E, enquanto alguém continuar a querer tocá-las, a história ainda não terminou.
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