Surto, editado a 25 de setembro, é o segundo álbum de Milhanas e reúne doze canções produzidas por Jon, Milhanas, Rodrigo Correia e Manel Oliveira. Gravado no Estúdio Vale de Lobos, o disco troca parte da construção fechada e cuidadosamente sombria de De Sombra a Sombra por uma linguagem mais física e expansiva. Não representa o abandono da melancolia que sempre acompanhou a cantora, mas a descoberta de que a tristeza pode existir sem ocupar todo o espaço.
A diferença percebe-se logo na forma como Milhanas se posiciona dentro das canções. No primeiro álbum, a voz parecia muitas vezes carregar sozinha a responsabilidade emocional de cada tema. Era simultaneamente narradora, personagem e ferida aberta, rodeada por arranjos que prolongavam esse isolamento. Em Surto, a voz continua a ser imediatamente reconhecível, intensa e capaz de transformar uma frase aparentemente pequena num acontecimento, mas deixa de dominar permanentemente o cenário. A música ganha movimento e dá mais corpo ao movimento interno de Milhanas.
“Intro” estabelece a ligação entre os dois discos através de uma breve viagem pelas referências e momentos que formaram a artista, tal como a presença de Fausto. É uma porta entre aquilo que Milhanas foi e aquilo que está a construir ser. “Deserto”, primeiro sinal desta nova etapa, conserva a aridez emocional e a escrita imagética do trabalho anterior, embora a dor já não surja como destino definitivo. O deserto é agora um lugar atravessado por alguém que, mesmo exausto, suplica para que esse estado de letargia termine e se liberte das amarras do seu próprio buraco.
Essa abertura torna-se mais evidente em “Mais je ne suis”, construída a partir de palavras retiradas de Vivre sa vie, de Jean-Luc Godard. O cinema não aparece no disco como simples decoração cultural ou lista de referências prestigiadas. “Ou então leva-me” e “Tempos vivos” prolongam esse movimento, como se o álbum estivesse constantemente dividido entre o impulso de partir e a vontade de permanecer tempo suficiente para perceber o que está a acontecer. Viver apesar da dor e não por causa dela.
“Se o jardim secar” é um dos momentos que melhor sintetiza Surto. A letra pertence ao lado mais triste do disco, mas a música recusa tratá-la como uma elegia. O contraste impede que a tristeza se feche sobre si própria e transforma a eventual secura do jardim numa possibilidade de recomeço. É também aqui que se compreende verdadeiramente a evolução de Milhanas: não começou a escrever canções felizes nem tentou substituir a escuridão por uma luminosidade artificial. Aprendeu a criar tensão entre aquilo que diz e aquilo que a música permite sentir. A dor permanece, mas já não controla sozinha a narrativa.
Na segunda metade, “O tanto que posso” e “Em teus olhos” tornam o discurso mais próximo e menos interessado na construção de uma personagem trágica. “Descansa” introduz um gesto de cuidado que teria sido difícil de encontrar no universo emocional do primeiro álbum, enquanto “Sabor da cereja” concentra uma sensualidade e uma curiosidade quase tácteis. O desejo deixa de aparecer apenas como falta, perda ou condenação e passa a ser também uma forma de presença. É uma mudança importante, porque demonstra que Milhanas não precisa de sofrer continuamente para conservar a profundidade da sua escrita.
“Se eu pudesse chorar”, com João Paulo Esteves da Silva, encontra no piano um interlocutor em vez de um simples acompanhamento. A contenção valoriza os silêncios e recorda que, apesar da abertura sonora do álbum, Milhanas continua a ser particularmente eficaz quando reduz uma canção aos seus elementos essenciais. “Passed Away” encerra o percurso sem oferecer uma resolução convencional. O título parece apontar novamente para a morte e para o desaparecimento, mas, depois de tudo o que o disco atravessou, também pode ser ouvido como a despedida de uma versão anterior da própria artista. Não se trata de apagar quem existiu, mas de reconhecer que já não é possível regressar inteiramente àquele lugar.
Nem todas as doze peças possuem a mesma força ou autonomia. Algumas funcionam sobretudo como passagens dentro da dramaturgia geral e as numerosas referências a Nick Cave, Patti Smith, Radiohead, Massive Attack, Godard ou Bergman são por vezes mais percetíveis na intenção do que numa linguagem musical totalmente assimilada. Surto é menos coeso do que De Sombra a Sombra, mas essa irregularidade corresponde também ao risco que o disco decidiu assumir. O primeiro trabalho sabia exatamente qual era o seu território enquanto o segundo prefere descobrir o que existe para lá das suas fronteiras.
O resultado é um disco mais vivo, imprevisível e por vezes contraditório, no qual a procura se torna mais importante do que a chegada. Depois de ter aprendido a dar forma à sombra, Milhanas começa finalmente a descobrir tudo aquilo que pode fazer quando decide sair dela.
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