Depois de SENSOREAL, Rita Vian regressa com quinze novas canções onde continua a cruzar eletrónica, sonoridades tradicionais portuguesas e uma escrita profundamente íntima, mas fá-lo agora com uma maturidade que afasta qualquer ideia de continuidade confortável. A própria artista descreve LIGA DURA como um álbum sobre aquilo “que não se vê por fora”: as experiências que nos moldam, as dificuldades que nos tornam mais conscientes e a capacidade de olhar para o mundo com maior lucidez e empatia.
Essa ideia percorre todo o disco e torna-se evidente desde os primeiros minutos. A breve “INTRO” funciona como uma preparação para um universo onde nada é imediato. É um prólogo que estabelece o ambiente emocional do álbum antes de “BRAVA” surgir como a primeira grande afirmação de força. Sem recorrer à agressividade, Rita Vian apresenta uma voz segura da sua identidade artística, enquanto “INTERNET” leva essa reflexão para um território profundamente contemporâneo, explorando a forma como a identidade também se constrói através da exposição permanente e da relação cada vez mais ambígua com o mundo digital.
“AMANHEÇA”, primeiro single, continua a ser um dos momentos mais fortes do disco. A produção dos irmãos GOIAS revela um equilíbrio raro entre eletrónica, música urbana e elementos da tradição portuguesa. É uma canção que resume de forma exemplar a linguagem que tem vindo a construir desde o primeiro álbum.
A partir de “TUA”, o álbum entra numa dimensão ainda mais íntima. É aqui que Rita Vian demonstra maior maturidade enquanto autora. Em vez de procurar respostas, aceita as contradições. “TUA” aproxima-se da canção de amor, mas evita qualquer romantização fácil. “SINA” acrescenta um lado quase fatalista ao percurso emocional do disco, enquanto “DAR-ME”, apesar da sua curta duração, funciona como um momento de suspensão antes de uma segunda metade ainda mais introspectiva.
É precisamente nesta segunda metade que LIGA DURA ganha maior profundidade. “INTEIRA” assume-se como um manifesto de reconstrução pessoal, uma afirmação de autonomia sem necessidade de transformar a independência em confronto. Logo depois, “CANÇÃO PORTUGUESA” revela uma das ideias mais interessantes do álbum, em vez de citar a tradição portuguesa de forma evidente, Rita integra-a naturalmente numa linguagem eletrónica e contemporânea que já é inteiramente sua.
Em “AMIGO” and “LIMITE”, a escrita torna-se ainda mais contemplativa. São canções sobre aceitação, sobre perceber que algumas relações terminam não por falta de amor, mas porque o crescimento também implica saber deixar partir. “BATALHA DOS ANJOS” introduz uma tensão diferente dentro do disco, funcionando como um dos momentos de maior intensidade emocional, antes de “FALSAS ESPERANÇAS”, com Manel Cruz. A presença do vocalista dos Ornatos Violeta nunca se sobrepõe à identidade de Rita Vian; acrescenta antes uma nova textura a um disco que privilegia a palavra e a interpretação.
As duas últimas faixas encerram o percurso de forma coerente. “ROTINA” olha para o quotidiano sem cinismo, reconhecendo que também nele existem pequenas transformações invisíveis, enquanto “GAIVOTAS” termina o álbum com uma sensação de abertura. Não existe um final definitivo. Existe apenas a consciência de que o processo de crescimento continua para lá da última canção.
Num panorama onde muitos discos parecem desenhados para durar apenas o tempo de uma tendência, Rita Vian continua a fazer o seu percurso com uma identidade muito própria. É um álbum pensado para ser ouvido do princípio ao fim, algo cada vez mais raro numa época dominada por playlists e consumo fragmentado.
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