Existem concertos. E depois existem experiências que parecem suspender, durante algum tempo, as leis normais do tempo. Live at the Roundhouse with the London Philharmonic Orchestra, de RY X, pertence claramente à segunda categoria, tal como o concerto que o australiano deu, a 24 de Maio, em Portugal, no Yard Festival.
Ao longo da última década, o músico australiano construiu uma das identidades mais singulares da música contemporânea. A sua voz delicada, quase sussurrada, sempre viveu numa tensão permanente entre fragilidade e transcendência.
Tal como no Yard, este concerto, gravado no histórico Roundhouse de Londres, reúne algumas das composições mais marcantes da carreira de RY X, incluindo “Sweat”, “Salt”, “Berlin”, “Oceans”, “Howling” e “Only”. Cada uma delas é reinterpretada através de arranjos orquestrais que ampliam a sua dimensão emocional sem destruir a intimidade que sempre definiu estas canções.
Existe uma espiritualidade subtil que atravessa toda a atuação, não espiritualidade religiosa, mas humana, que se traduz na sensação de estar perante alguém que utiliza a música como ferramenta de procura interior.
As canções deixam de soar como composições e passam a funcionar como meditações sobre amor, perda, desejo e pertença. A melancolia está presente do início ao fim, mas surge como uma aceitação da vulnerabilidade que acompanha inevitavelmente qualquer experiência humana profunda. É precisamente essa honestidade emocional que torna temas como “Berlin” ou “Only” tão devastadores quando interpretados neste contexto orquestral ou ao pôr do sol.
No fundo, os concertos de RY X são sobre a procura constante por algo que existe para lá das palavras, mas que se sente em cada poro, que transforma os dias de quem sente que um simples encostar de cabeça pode transformar todo um mundo.
E talvez seja precisamente por isso que esta atuação permanece muito depois da última nota desaparecer. Porque há momentos em que a música deixa de ser entretenimento e passa a recordar-nos que existem presenças cuja importância só compreendemos verdadeiramente quando tentamos imaginar o mundo sem elas.
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