Há atualmente uma tendência crescente para transformar tudo em identidade, num rótulo, posição ou diferença. Talvez por isso “Só Gente”, de MARA, chegue com uma simplicidade quase desarmante.
A canção parte de uma ideia que parece óbvia, mas que raramente praticamos: antes de qualquer definição, somos apenas pessoas. Pessoas que amam, falham, desejam, partem e procuram algum tipo de sentido no meio da confusão dos dias.
Em “Só Gente”, que conta com letra de Cátia Mazari Oliveira (A Garota Não) essa humanidade surge sem grandiosidade, mas através de imagens quotidianas, de gestos pequenos e de uma proximidade emocional que evita o dramatismo.
A expressão “somos só gente que se beija no cais” carrega precisamente essa força. Afinal, ser “só gente” significa também aceitar imperfeições, contradições e limitações. Significa aceitar que ninguém possui respostas definitivas, mas que existem coisas que ultrapassam qualquer rótulo, sentem-se, a cada momento, antes de qualquer definição.
No fundo, “Só Gente” funciona como um pequeno gesto de resistência contra a necessidade permanente de nos apresentarmos como algo maior, mais forte ou mais extraordinário do que realmente somos.
E talvez exista alguma beleza em regressar a essa simplicidade. À ideia de que, antes de qualquer rótulo, continuamos a ser apenas gente.
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