Mythological Portraits, o novo trabalho de Mariana Dionísio e do ensemble vocal LEIDA (composto por Leonor Arnaut, Beatriz Nunes, Filipa Franco, Nazaré da Silva, João Neves, Hugo Henriques, Diogo Ferreira, Henrique Coelho e Beatriz Gomes. Participam ainda João Pereira, Bernardo Tinoco e João Carreiro), parece nascer de um espaço inteiro.
Editado pela Artway Editions, o disco apresenta LEIDA como “um instrumento a 8 vozes”, uma definição que ajuda imediatamente a perceber que este projeto está muito longe da ideia tradicional de ensemble vocal. Aqui, a voz deixa de funcionar apenas como veículo melódico ou narrativo.
Mythological Portraits move-se constantemente entre composição e aparição. Cada peça parece surgir lentamente do silêncio, como se estivesse a descobrir a própria forma em tempo real. Mariana Dionísio constrói o disco através de sistemas rigorosos de parametrização e limitação, criando “sub-instrumentos” internos onde improvisação, gesto e estrutura coexistem em equilíbrio delicado.
Gravado entre a Igreja de Santa Clara de Vila do Conde e a Igreja Matriz de Loures, o disco absorve completamente os espaços onde foi captado. O eco, a profundidade, a suspensão do ar e o tempo natural da reverberação tornam-se parte integrante da composição. Não estamos apenas a ouvir música dentro de uma igreja; estamos a ouvir música moldada pela própria arquitetura.
As vozes surgem e desaparecem como figuras difusas dentro de uma névoa acústica. Há momentos em que LEIDA soa como ensemble contemporâneo, outros em que parece coro ancestral, organismo vivo ou até fenómeno natural impossível de localizar totalmente.
No fundo, este é um disco que não pede apenas escuta. Pede imersão. E talvez a sua maior força esteja precisamente aí: na capacidade rara de fazer a música soar não como algo que está simplesmente a acontecer…mas como algo que habita verdadeiramente o espaço à nossa volta, que obriga a entrar para um universo paralelo, entre o belo e a claustrofobia de quem lhe tenta sobreviver, e que, a todo o instante tem vozes na sua cabeça com que não sabe lidar.
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