O concerto da A Garota Não no Art Explora Festival demonstrou, uma vez mais, que a intensidade artística raramente depende de superproduções ou grandes multidões, mas sim da honestidade com que uma voz é capaz de confrontar quem a escuta.
Vivemos numa época em que a palavra “festival” é frequentemente associada a cartazes repletos de nomes, grandes produções e milhares de pessoas concentradas num mesmo espaço. O Art Explora Festival parte de uma ideia completamente diferente. Em vez de perguntar como podemos levar o público até à cultura, pergunta como podemos levar a cultura até às pessoas.
Criado pela Art Explora Foundation, fundada em 2019 pelo empresário e filantropo francês Frédéric Jousset, o projeto nasceu da convicção de que o acesso à arte continua profundamente desigual. Depois de uma carreira ligada ao setor tecnológico, Jousset decidiu investir uma parte significativa do seu património na criação de iniciativas capazes de aproximar públicos que raramente entram num museu, frequentam uma galeria ou participam em grandes eventos culturais.
O elemento mais visível dessa visão é o ArtExplorer, apresentado como o primeiro navio-museu do mundo. Mais do que uma embarcação, funciona como uma plataforma cultural em permanente movimento. Entre 2024 e 2026 percorre dezenas de cidades mediterrânicas, transformando cada escala numa oportunidade para aproximar diferentes comunidades através da arte, da música, do cinema, das performances, da realidade virtual, das conversas e da criação contemporânea. Tudo com entrada gratuita, numa filosofia que coloca o acesso à cultura acima de qualquer lógica comercial.
Não surpreende, por isso, que artistas como A Garota Não encontrem neste contexto um palco particularmente natural, pese embora as dúvidas que a mesma transmitiu durante o concerto. A música de Cátia Mazari Oliveira vive da observação do quotidiano, da memória coletiva e da reflexão sobre a sociedade. O festival, por sua vez, procura precisamente devolver à arte esse lugar de encontro e participação. Mais do que acolher concertos, cria um espaço onde diferentes formas de expressão dialogam entre si e com quem as vive.
Ao longo dos últimos anos, Cátia construiu uma das identidades mais relevantes da música portuguesa contemporânea. Através do projeto A Garota Não, transformou a canção de intervenção num espaço onde a poesia, a vulnerabilidade e a crítica social coexistem sem nunca perder humanidade.
Logo no início do concerto, a artista fez questão de assumir uma das contradições que sentia. Confessou que lhe causava estranheza, sendo oriunda do Bairro 2 de Abril, em Setúbal, atuar na Marina de Cascais.
Da plateia surgiu de imediato a resposta: “Em Cascais também há revolucionários.” A frase foi recebida com um sorriso e acabou por definir o ambiente da noite. O concerto transformou-se rapidamente num diálogo entre palco e público, onde os aplausos não surgiam apenas no final das canções, mas também após muitas das palavras que as antecediam.
Cátia agradeceu o convite, elogiou o conceito do festival e a forma como foi recebida, mas acrescentou que talvez existissem outros portos em Portugal onde o acesso à cultura fosse mais urgente. Foi uma intervenção breve, mas suficiente para recordar que, em A Garota Não, o palco nunca é apenas um lugar para cantar. É também um espaço para pensar e intervir.
Sempre acompanhada pela enorme sensibilidade musical de Sérgio Miendes, Diogo Arranja e João Mota, A Garota Não percorreu alguns dos momentos mais marcantes do seu repertório. Não faltaram temas como “Dilúvio”, “O Prédio Mais Alto” ou “Urgentemente”, mas houve também espaço para apresentar várias composições de Ferry Gold, como “A casa de Bernarda Alba”, com que abriu o concerto, bem como, “Este País não é para mães”, “Levante-se uma Escola”, “Falemos das Cartas” ou “Alaska” com poema de João Quadros.
Reels disponíveis AQU Ihttps://www.instagram.com/ecletismomusical/
Um dos momentos mais marcantes chegou precisamente com “Ferry Gold”. Partindo das memórias de infância de Cátia em Tróia, a canção transforma-se numa reflexão sobre a privatização do espaço público, a desigualdade e a forma como paisagens que julgávamos pertencer a todos acabam, lentamente, por deixar de o fazer. Num festival cuja identidade nasce de um barco que percorre o Mediterrâneo para democratizar o acesso à cultura, a canção ganhou uma dimensão quase simbólica.
Também “Mediterrâneo” encontrou um enquadramento particularmente forte. Enquanto o Art Explora utiliza um navio para aproximar povos através da cultura, a canção recorda o outro lado desse mesmo mar: o das milhares de pessoas que arriscam a vida na tentativa de alcançar a Europa. Dois barcos. Dois destinos profundamente diferentes. Um dedicado ao encontro entre culturas. Outro tornado símbolo da desesperança de quem procura simplesmente sobreviver.
Houve igualmente espaço para a poderosa reinterpretação de “No Love”, de Allen Halloween, para “422 Milhões”, onde os lucros milionários convivem com uma reflexão sobre desigualdade, para “Canção Sem Final”, onde Cátia lembra que “podem decretar o fim da arte/E a gente faz uma canção sobre isso”, e para “Os Meus Mortos”, composição construída a partir da obra de Manuel António Pina para o espetáculo Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem, com direção de Vítor Hugo Pontes.
Num tempo em que a velocidade das redes sociais parece exigir respostas imediatas para todas as questões, A Garota Não continua a lembrar-nos que algumas das perguntas mais importantes não procuram soluções rápidas. Precisam apenas de ser colocadas com honestidade. Talvez seja precisamente essa a função maior da arte: não oferecer certezas, mas devolver-nos a capacidade de olhar para o mundo com uma sensibilidade que, tantas vezes, esquecemos possuir.
No Comments Yet!
You can be the first to comment on this post!