Ao longo de mais de três décadas, PJ Harvey habituou-nos a criar discos que desafiam qualquer tentativa de classificação. Foi mudando constantemente de linguagem para continuar a explorar a mesma pergunta: o que significa ser humano? Em “Voyager”, essa pergunta ganha uma dimensão completamente nova. Pela primeira vez, Harvey procura responder-lhe a partir do espaço profundo.
A origem da canção ajuda a compreender essa mudança de perspetiva. “Voyager” nasceu durante o processo de composição do próximo álbum de PJ Harvey, mas encontrou um novo significado quando o físico britânico Brian Cox a convidou para escrever uma peça para o espetáculo Emergence. Ao ouvir a primeira versão, Cox imaginou imediatamente a voz da Voyager 2 a comunicar com a Terra. A ideia entusiasmou Harvey, que aprofundou a história das sondas Voyager, trabalhou um acompanhamento orquestral com o compositor Dario Marianelli e acabou por transformar a canção num diálogo imaginário entre uma criação humana e o planeta que a viu partir.
Lançadas pela NASA em 1977, as sondas Voyager 1 e Voyager 2 continuam, quase cinco décadas depois, a enviar sinais para a Terra. São os objetos construídos pela humanidade que viajaram mais longe, atravessando o espaço interestelar muito para além dos limites do Sistema Solar. Cada uma transporta também o célebre Golden Record, um disco concebido para qualquer eventual civilização que um dia o possa encontrar. Nele viajam sons da Terra, dezenas de idiomas, imagens da vida no nosso planeta e música que atravessa séculos e culturas, de Bach e Beethoven a Blind Willie Johnson e Chuck Berry. A ideia, desenvolvida com a participação do astrónomo Carl Sagan, procurava responder a uma pergunta impossível: se tivéssemos apenas uma oportunidade para explicar quem somos, o que escolheríamos mostrar?
É precisamente essa distância que atravessa “Voyager”. Harvey imagina a sonda a olhar para trás e a contemplar a Terra já reduzida ao famoso Pale Blue Dot, a expressão utilizada por Carl Sagan para descrever a fotografia captada pela Voyager 1 em 1990, onde o nosso planeta surge como um ponto azul quase invisível perdido na imensidão do cosmos. Quando a canção convida a “look back at a pale blue dot”, não está apenas a citar Sagan. Está a recordar-nos que todas as fronteiras, guerras, sucessos, fracassos e histórias de amor cabem nesse pequeno ponto suspenso no escuro.
Num tempo em que tantas canções procuram explicar a experiência humana através da intimidade individual, PJ Harvey escolhe uma perspetiva quase impossível. Afasta-se milhares de milhões de quilómetros da Terra para nos lembrar de algo profundamente simples: vistos dessa distância, talvez a nossa maior conquista nunca tenha sido construir sondas capazes de atravessar o espaço interestelar. Talvez tenha sido conservar, apesar de todas as diferenças, a capacidade de escolher a luz, o amor e a gentileza como forma de habitarmos o único lar que conhecemos.
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